Ao indagado sobre a existência de Deus,
o escritor Jose Saramago respondeu:
“Se Deus existisse não faria o que fez com o povo de Santa Catarina.”
Tal opinião se deu por ocasião das enchentes devastadoras naquele estado
e de lá para cá, o Nobel de literatura entrou numa cruzada ateísta,
tão pregadora quanto a de qualquer jesuíta em catequese.
Sou ateu, como disse LF Veríssimo, não praticante.
Acredito no ser humano, na sua ilimitada capacidade
de criar e buscar conhecimento, e na sua incapacidade
de dar respostas aos mistérios.
Mas não faço da minha “fé”uma bandeira a ser divulgada.
Crenças religiosas ou não crenças cada um tem a sua.
Admito o quanto de confortante seja para os flagelados da vida,
que perdem tudo de material de uma hora para outra,
ter uma uma fé, um fio de esperança sequer para continuar vivendo.
Em seu mais recente livro, Caim,
Saramago desfila seu talento absurdo e sua intimidade total com o bom texto,
coisa que me faz um hipnotizado e voraz leitor de suas obras.
No entanto, ouso dizer que ele está virando um xiita ateu,
que faz de suas palavras bem escritas uma bíblia a ser seguida, religiosamente.
E se Deus lhe é tão perturbador,
desconfio que ele considera a sua existência, mesmo que à avessas.
Eis a contradição. Coisa que dá até em gente inteligente.

novembro 17th, 2009 at 15:58
Grandes e belas palavras, ZéGui. Assino embaixo. Valeu a pena esperar.
Colo abaixo um poema do maior poeta, que, aos meus olhos, diz muito da atual fase do grande escritor:
Não, não é cansaço…
Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que me estranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento
Um feriado passado no abismo…
Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…
Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, veja
Confesso: é cansaço!…
novembro 17th, 2009 at 16:15
ZéGui, relendo agora seu texto fiquei pensando que o Saramago, igual as carolas de um outro poeta, às avessas, decerto, vai tomar um susto quando descobrir que Deus existe…