Muita tentação

A parede entre os dois era tênue,
como tênue era a voz que relatava o ato ao interessado ouvinte.
Era quase um sussuro.
- Nunca vi corpinho mais perfeito que aquele!
Os seios tão pequenos que mais parecem duas saliências.
Quadris estreitos, boquinha miúda e nos cabelos,
uma maria-chiquinha colorida que eu fiz questão de deixar no lugar.
- Conte mais, caro rapaz. Conte mais.
- Então, diante daquela visão do paraíso, não resisti.
- Compreensível, meu caro, compreensível…
- Eu comecei lhe dando beijinhos, fazendo carinhos…
Como sua pele era macia!
- Estou sentindo, estou entendendo. Prossiga, meu jovem, prossiga.
- Quando fui ver, estava fazendo, já estava fazendo…
- Não, não…
- Sim! A tentação era muito grande. Não resisti.
- Não, não…
- Mas era muita tentação!
- Sim, sim…
- O senhor me entende?

- Eu fiz alguma coisa errada?

- O senhor tá me ouvindo?

Não, o padre Eusébio não estava ouvindo o penitente.
Estava no banheiro. Limpando a batina.
Era muita tentação. Muita tentação.

Enviado por Mariana Valle

5 Responses

  1. Olga Says:

    Que boa surpresa quando se chega ao fim do relato. É de uma menina e não de um menino a autoria. Ótima descrição, a da menina.

    Boa, Mariana.

  2. Mariana Valle Says:

    Obrigada, Olga.

    O bom de escrever é isso: podemos experimentar realidades completamente diferentes das que vivenciamos na prática.

    Bjs,
    Mariana

  3. Fernando Teixeira Says:

    O ato de escrever ficção só é comparável ao nosso pensamento, ou seja, podemos dar asas à imaginação para vivenciar algo que a cruel realidade não nos permite. Culpa da censura imposta pela “civilização”.
    Parabéns!
    Fernando

  4. Andre Bremer Says:

    Parabéns Mariana, mais um excelente texto com a sua assinatura.

    beijos

  5. Pedro Portilho Says:

    Clap, clap, clap.

    Bela(s) escrita(s).

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