A bela (que não era tão bela assim)
trabalhava em uma Repartição do Estado da Guanabara.
Aos seis ainda não sabia soletrar seu próprio nome.
Aos doze brincava “de médico” com o vizinho.
Aos vinte e três encontrava-se morando com mais três amigas
em uma quitinete alugada na Prado Júnior.
Era versada n’arte do ócio e dominava grande habilidade
em achar Tatuís na praia de Copacabana.
Casaram-se e tiveram filhos.
Cléber deixou crescer uma barriga e um bigodinho.
Vendeu o barco e mudou-se para um dois-quartos na Tijuca.
Ingressou no mundo dos burocratas
tornando-se o melhor Administrador que o Município já teve.
Há vinte anos não via o Mar.
Um belo dia seu Chefe resolveu conceder-lhe um bônus nas férias,
em gratidão aos serviços prestados.
Mandou-o para Cabo Frio, sozinho e com tudo pago!
Assim que colocou os pés na praia,
Cléber lembrou-se da vida que um dia teve.
Nunca tinha sentido nada igual.
O sangue subia-lhe à cabeça.
Seus membros pulsavam e sua mente fervia de tanta melancolia.
Olhava para os lados e revia todas suas aventuras.
Correu para o hotel e atônito,
ligou para a esposa:
“Genalva, vem me buscar que eu estou odiando.”.
Após uma profunda e sonora tragada,
responde uma voz grossa e máscula pelo outro lado da linha:
“Genalva não pode falar agora.
Está ocupada. Querendo, ligue mais tarde!”.
Assim, ironicamente aos quarenta e três,
Mundim começa a conhecer seu próprio mundo.
Enviado por Pedro Portilho.