jun 30

 

Numa manhã de sábado, no Rio de Janeiro,

resolvi ir a um posto e mandar lavar o meu carro.

Coitado, estava todo sujo.

Seu último banho, acho que já fazia um mês ou mais.

Tinha até um casaco feminino no banco de trás.

Devia ser de alguma perua com quem saí, não me lembrava de quem,

afinal, estava solteiro e na gandaia.

Dei para o frentista, pra ele mandar lavar e dar pra alguma amiga,

namorada, irmã, enfim pra quem precisasse.

Na sexta-feira seguinte, à noite, fui tomar um uisquinho com os amigos

num bar em Botafogo que era frequentado

pelo pessoal das agências de propaganda que ficavam perto.

Marta Bartolomeu, moça finéssima,

diretora de uma agência, sentou-se conosco.

Em determinado momento,

Marta chamou o garçon e perguntou se na sexta-feira anterior

ela não tinha esquecido um blaser de linho da Kishna na cadeira.

Lembrei-me de tudo na hora: na sexta-feira anterior,

eu tinha dado uma carona para ela, no meu carro, sujo mesmo.

E no sábado, eu dei um blaser de linho

de uma das lojas mais caras do Rio para o frentista do posto.

Pensando que fosse de alguma perua.

 

Da série Mini Crônicas

Enviada por Classir Scorsato

 


jun 29

 

Nada se cria, tudo se copia?

 

Podia ser uma seção aqui nessa página.

Material existe e sempre aparece mais,

principalmente em tempos de internet

onde o cara vê o comercial de Cingapura

e “adapta” para o Brasil.

Mas , quem  cria tem que pensar

que existe o cara que compra

ou se utiliza do serviço que o seu comercial vende

e que ele também navega na internet.

Bom exemplo disso são os filmes abaixo.

O sujeito andando na estrada

e falando adoidado começou (não sei bem)

com este do Braclay’s com Samuel L. Jackson,

dirigido pelo cobra britânico Jonathan Glazer.

 

http://www.youtube.com/watch?v=cdEjvONBWNs

 

Depois a Nextel achou bacana e encomendou este

ao cobra brasileiro Fernando Meirelles.

 

http://www.youtube.com/watch?v=lso2ziGGuis

 

 

Enviado por Paulo Peres

www.cinemacurto.blogspot.com

 

 

 


jun 26

Uma nova história, em 3 tempos,

de Gibrael Gibran.

 

Tempo 1.

 

Acordo.

Olho a folhinha na parede

e vejo que é dia 20 de fevereiro de 2002.

Estava escrito que o dia seria estranho.

Saí de casa, mas me dei conta

de que já tinha saído de casa.

Voltei, mas também já tinha voltado.

Cada fato vivido já tinha sido vivido.

Nada acontecia de novo.

Era viver tudo de novo.

E de novo. E de novo.

Resolvo beber um gole,

que também já tinha bebido.

Pego no sono. Pego no sono?

Acordo.

Olho a folhinha na parede

e vejo que é dia 20 de fevereiro de 2002.

Só uma palavra me vem à cabeça:

 

“…REVER…REVER…REVER…REVER…”

 


jun 23

 

 

Um jovem idoso de hoje 92 anos

aprontava todas na mocidade.

Certa vez, ele e sua turma

quiseram se vingar de um inglês chato e pedante,

que aportou no Rio de Janeiro com a dupla ameaça

de roubar empregos e cortejar moças da sociedade carioca. 

Por ser exibido e rebuscado,

caiu numa armadilha o arrogante infeliz.

Levaram o estrangeiro a uma festa de 15 anos

de uma jovem de família poderosa e tradicional,

num casarão em Botafogo.

O idoso de hoje e traquina de outrora

chamou o inglês num canto

e disse que o pai da aniversariante

havia lhe concedido a honra de recitar um verso

em homenagem à donzela.

Em seguida, cochichou ao dono da festa

que um representante da realeza britânica

gostaria de dizer algumas palavras à sua filha.

E colocaram no smoking do inglês o discurso pronto.

Tão logo o bolo de 15 velinhas acesas adentrara aos salões,

mesmo sem saber uma palavra de português,

o  britânico engomado retirou um papelzinho do bolso.

E com um sotaque de arrasar,

trejeitos de mau Laurence Olivier,

declamou a honraria

como se tivesse escrito algo shakespeareano

do fundo da sua alma.

 

15 anos!

Idade sem parelhos

com três coisas a crescer:

peitinhos, pentelhos

e vontade de foder.

 

Diz o jovem idoso travesso, às gargalhadas,

que o incauto de tanto apanhar correu até a Praça Mauá,

onde se enfiou nos porões do primeiro vapor do píer.

Deve ter ido parar na Argentina.

E se dado muito bem na vida, quem sabe.

 

 

Nota do editor:

esta história me foi contada pelo eternamente jovem avô da minha mulher.

Que nega autoria da travessura, mas conta o causo como se os versos fossem seus.

Não duvido.

 

 

 

 


jun 22

 

Ajudar não dói.

 

A FSID

(The Foundation for the Study of Infant Deaths) 

é uma entidade de ajuda à famílias

cujos filhos morreram repentinamente e sem explicação.

Neste dramático comercial eles  pedem a sua ajuda.

 

http://www.youtube.com/watch?v=nrv3crwcyuc

 

Enviado por Paulo Peres

www.cinemacurto.blogspot.com

 

 

 


jun 19

 

História de Gibrael Gibran narrada por um amigo.

 

Na aldeia, Gibrael procurava por Hannah,

a irmã mais nova por parte de pai,

que ele não via há tantos anos.

Quando soube dela, disparou a correr

junto com seu coração.

Quis o destino que ele chegasse à aldeia

no mesmo dia em que Hannah,

acusada do crime de adultério, ia sofrer a sentença.

Gibrael viu a multidão com fúria nos olhos

e pedras nas mãos para punir Hannah,

como era da lei da aldeia e da mesquinhez dos homens.

Hannah, altiva, desafiava:

 - Vocês querem matar o desejo. Mas ele renascerá sempre.

A multidão atônita não sabia como reagir.

Um homem irado (e nem era ele o marido ofendido)

toma a frente do grupo e ergue o braço

com uma pedra de dimensões fatais.

De um salto, Gibrael se coloca à frente da irmã.

A turba recua. O homem suspende o gesto. Hannah está salva.

Gibrael fala, seguro, olhando nos olhos do raivoso,

que obedece como o cordeiro que é:

 

“ESSA PEDRA, VOCÊ, COVARDE…PASSE!”

 


jun 15

 

 

O músico John Michael Osbourne,

ou Ozzy Osbourne,

é conhecido por sua fala

que poucos compreendem

e que o levou a faturar em comerciais

da Samsung como este:

 

http://www.youtube.com/watch?v=ssXeUhnK9Nc&feature=PlayList&p=185C9AB904AD45B9&index=0&playnext=1

 

Neste, o “Príncipe das Trevas”

se assusta com tanta tecnologia.

 

http://www.youtube.com/watch?v=ha8VmHEQXJs

 

Enviado por Paulo Peres

www.cinemacurto.blogspot.com

 

 

 


jun 9

 

 

Quando eu era criança, adorava histórias de piratas.

Mas nunca poderia imaginar que iria ver tantos piratas

como hoje, nas ruas de São Paulo.

Você quer uma Lewis 505? Tem a pirata.

Quer um Eternity? Tem pirata.

Quer um Nike? Tem pirata.

Os últimos lançamentos do cinema

ou da sua dupla serteneja favorita?

Antes do filme chegar aos cinemas ou o CD às lojas, já tem pirata.

Não, senhores, mulher ainda não piratearam.

Travesti não é mulher pirata, é travesti mesmo.

Fora isso, para quase tudo tem uma cópia pirata.

E, ao contrário das histórias da minha infância,

os piratas de hoje em dia não carregam arcas e baús cheios de tesouros.

Pelo contrario, custam menos da metade dos produtos legais.

Mas essa história de pirata é bem antiga,

quando pirateavam uísque do Paraguai

que você tomava e no dia seguinte

sentia uma verdadeira batalha contra os piratas na sua cabeça.

Naquele tempo, havia uma loja da Henri Matarasso na Avenida Paulista,

quase esquina com a Brigadeiro, que tinha uma placa enorme em cima.

Na placa estava escrito:

“Móveis coloniais e antiguidades. Fabricação própria.”

Era um pirata honesto.

 

Enviado por Classir Scorsato.

 

 


jun 8

 

Vai pro ar ou não vai?

 

Nos anos 50 e 60,

nossos irmãos do Norte já mandavam

e desmandavam na propaganda.

E o vale-tudo não tinha limites.

Veja os comerciais abaixo

e responda se hoje em dia:

a) Algum criativo pensaria em criar  comerciais desse tipo?

b) E o cliente aprovaria algo assim?

c)  E tudo desse certo, seriam veiculados?

 

 

 http://www.youtube.com/watch?v=9Q1gksqqhLU&feature=rec-HM-r2

 

http://www.youtube.com/watch?v=NAExoSozc2c

 

Deixando os “polices” de lado,

s dois filmes,  são no mínimo divertidos.

 

Eviado por Paulo Peres.

www.cinemacurto.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

 


jun 5

História em 3 tempos de Gibrael Gibran.

 

Tempo 3.

 

Nasceu em mim um carinho enorme

por aquela Eva tão só, em meio a cobras,

maçãs e um Adão desumano,

que nada entendia da sua natureza.

Imaginei-a vagando nua

por aquele jardim que era o seu inferno.

Comecei a querer reinventar a origem,

construir para o homem uma história de maior dignidade.

Que Adão conseguisse ver em Eva algo mais

do que a sua costela e culpa,

que fosse tocado pela mesma graça,

pela vontade de voar, pela idéia da liberdade.

Insensato, misturei as figuras de Adão

e daquele homenzinho criacionista.

E passei a odiá-los em um só.

E contra eles, blasfemei:

 

“ADÃO, VERME! EVA É AVE EM REVOADA!”

 

 


jun 4

 

Semana passada houve o rompimento da barragem no Piauí.

Não sou rato de noticiário, não sei os detalhes.

Nem sei se foi semana passada.

Parece que, mesmo com o risco imimente,

as autoridades autorizaram as famílias a voltar para suas casas.

A barragem estourou e mais uma dúzia faleceu,

para engordar morbidamente a lista das vítimas

das enchentes no Nordeste.

Quando notícias assim aparecem,

a sensação é a de “nossa, pelo menos não foi comigo”.

São desafortunados, são carentes, é no Piauí.

E logo essas tragédias comuns, as piores,

mais com a mão da negligência do que com a da providência,

deixam de reverberar pelas conversas.

Aí, cai o avião da viagem dos sonhos.

Francês, perfeito, sem nenhum corrupto de pança saliente  para culpar

ou prática fisiologista que reduz o país ao Piauí para tentar,

mais uma vez, dar um fim.

Simplesmente caiu, com casal em lua de mel e príncipe herdeiro.

Mesmo sendo um acidente remoto, geográfica e estatisticamente,

a sensação é “nossa, podia ter sido eu”.  

Chegando ao último parágrafo, no limite dos 30 segundos,

ainda não sei o que pensar disso.

Mas, sim, é uma coisa para se pensar.

Enviado por João Vereza

 


jun 3

 

 

Semana passada, escrevi para o

www.mundomundano.com.br

o artigo Uma História Horrível,

sobre o repertório de obras macabras reais

que somos obrigados a engolir na vida.  

Infelizmente, este artigo ficou ultrapassado

pela brutalidade de dois acidentes aéreos

muito próximos no tempo e no espaço.

Impressionante a força que as tragédias monumentais

exercem sobre nós.

Ficamos chapados, deprimidos,

obsessivamente curiosos sobre detalhes do acontecido,

como se quiséssemos aplacar a dor solidária.

Imaginamos os instantes que antecederam a desgraça,

refazemos o roteiro na nossa cabeça,

como personagem de uma historia que não é nossa,

mas bem poderia ter sido.

Quando temos pessoas conhecidas envolvidas

nossos sentimentos, então, entram numa turbulência,

com o perdão do trocadilho infame e inoportuno.

Inconformismo, injustiça, desespero, saudade,

“por que não foi diferente?”, “ e se isso?, “ e se aquilo?”,

“Quem é o culpado? Deus? O diabo? o piloto? O governo?

A ação do homem sobre o clima do planeta? Santos Dumont?”,

tudo chacoalha dentro da gente.

As catástrofes de grandes proporções são cruéis e absolutas.

Tendem a reduzir o assalto ali na esquina

a um conto de fadas infeliz ou numa historinha

de bruxa para assustar criança.

O que é mais um efeito doloso e egoísta das tragédias.

 

 


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