Abra o jornal O Globo no dia seguinte a alguma grande operação policial em favelas cariocas e vá até a seção “carta dos leitores”. É um exercício antropológico formidável.
Em tais operações, como se sabe, a polícia costuma executar traficantes e “supostos traficantes”. (Soldados do BOPE, lembre-se, não carregam algemas.) E, sempre que isto acontece, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou alguma ONGs ligada aos direitos humanos entra em cena, denunciando o crime: bandidos, “supostos” ou “de fato”, também têm direito a julgamento.
É o que basta para as cartas começarem a chegar. “Onde estão a OAB e as ONGs de direitos humanos quando nós, pessoas de bem, nos tornamos vítimas de criminosos?”, vociferam alguns leitores. “Relativistas!”, gritam outros.
O que os leitores falham em perceber é que este relativismo de que acusam a OAB é apenas aparente. Na verdade, a atuação da OAB se dedica a tentar corrigir o relativismo que realmente importa, tão arraigado que chega a nos parecer “natural”. Trata-se do hábito das classes média e alta de pensar que, dentro da favela, vale tudo – mas não nos bairros nobres, não na Zona Sul, não na “nossa casa”. Ao diabo com o Estado de Direito para os miseráveis: ele é exclusividade nossa, dos civilizados.
