abr 29

Abra o jornal O Globo no dia seguinte a alguma grande operação policial em favelas cariocas e vá até a seção “carta dos leitores”. É um exercício antropológico formidável.

Em tais operações, como se sabe, a polícia costuma executar traficantes e “supostos traficantes”. (Soldados do BOPE, lembre-se, não carregam algemas.) E, sempre que isto acontece, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou alguma ONGs ligada aos direitos humanos entra em cena, denunciando o crime: bandidos, “supostos” ou “de fato”, também têm direito a julgamento.

É o que basta para as cartas começarem a chegar. “Onde estão a OAB e as ONGs de direitos humanos quando nós, pessoas de bem, nos tornamos vítimas de criminosos?”, vociferam alguns leitores. “Relativistas!”, gritam outros.

O que os leitores falham em perceber é que este relativismo de que acusam a OAB é apenas aparente. Na verdade, a atuação da OAB se dedica a tentar corrigir o relativismo que realmente importa, tão arraigado que chega a nos parecer “natural”. Trata-se do hábito das classes média e alta de pensar que, dentro da favela, vale tudo – mas não nos bairros nobres, não na Zona Sul, não na “nossa casa”. Ao diabo com o Estado de Direito para os miseráveis: ele é exclusividade nossa, dos civilizados.


abr 27

Quer dentes brilhantes? O caminho é a Índia. 

A Índia está na moda.

Na TV com a novela “Caminho das Índias”,

no cinema com “Quem quer ser um milionário” de Danny Boyle.

Mas a publicidade chegou antes

com este comercial da goma de mascar Happydent,

leão de prata em Cannes 2007.

Exagerado, hilário e com produção caprichada.

Está mais no clima do filme do que da novela. 

 

http://www.youtube.com/watch?v=0xwdvyy5E08&feature=channel_page

 

Enviado por Paulo Peres.

 

 

www.cinemacurto.blogspot.com

 


abr 27

A construção de muros destinados a cercar 11 favelas do Rio de Janeiro não é apenas mais um capítulo do longo histórico de equívocos da atuação do poder público. É sua apoteose, a expressão mais cristalina de uma mentalidade que domina a política brasileira em geral e a carioca em particular – uma mentalidade baseada na lógica da repressão, exclusão e  isolamento.

São muitos os exemplos. O Código de Posturas Municipais de 1890 proibiu o jogo, a boemia, a capoeira e a venda de comida na rua, enfim, boa parte do estilo de vida das classes populares. Mas as favelas, enclaves urbanos tidos como incivilizados, se multiplicaram ao longo do século XX. Então o foco das políticas públicas mudou, e a remoção de moradores e áreas favelizadas passou a ser prioridade: na administração de Carlos Lacerda (1962-65), mais de 40 mil pessoas foram removidas, em 27 favelas; na de Chagas Freitas (1971-74) foram quase 140 mil, em 80 favelas. E quando, a partir dos anos 80, explodiu a violência associada ao tráfico de drogas, o poder público rapidamente voltou suas energias para a repressão e o enfrentamento, cujo símbolo maior talvez seja o “Caveirão” do Bope.

Em resumo: primeiro, tentou-se, por decreto oficial, europeizar os costumes dos moradores das favelas. Não funcionou. Depois, o Estado tentou remover a favela para longe dos olhos da Zona Sul – no que também não foi bem sucedido. Finalmente, dada a presença incômoda da violência nas ruas e do medo nos jornais, a última tentativa: a deflagração de uma guerra, que atropela os direitos humanos e garantias civis de quem mora nas comunidades atingidas. Outro fiasco: o tráfico continua vendendo, os consumidores comprando, e a criminalidade segue assustando a todos.

Em artigo publicado no jornal O Globo de 5/4/2009, Elio Gaspari denunciou a falácia por trás dos argumentos mobilizados para justificar a construção dos muros. Não se trata, diz Gaspari, de uma medida para conter a expansão das favelas – as comunidades escolhidas, quase todas na Zona Sul, cresceram apenas 1,2% nos últimos 10 anos –, mas de uma “fantasia demófoba e irracional” cujo objetivo é fixar os limites do medo, demarcando também uma sensação (ilusória) de proteção. Mais uma iniciativa condenada ao fracasso.

É condenada ao fracasso porque a lógica que a sustenta é falha, equivocada. Não importa se você é de “direita” ou “esquerda”: se ainda resta um pingo de pragmatismo por trás de suas convicções, você será obrigado a reconhecer que esta lógica – de isolamento, repressão e exclusão – teve mais de um século para se provar eficiente no que diz respeito à favela, e não conseguiu. Se restar, pois, este pingo de pragmatismo, você começará então a considerar uma alternativa: o esforço sério e contínuo de agir conduzido por uma outra lógica, da inclusão, do acesso à educação, da rotina vivida sob o Estado de Direito. Muito provavelmente, você deixará de pensar na favela como uma doença a ser erradicada e passará a enxergá-la como um sintoma, não do nosso atraso econômico, mas sim de nossa insistência em utilizar a lógica errada para lidar com as conseqüências deste atraso.


abr 24

História em dois tempos de Gibrael Gibran.

Primeiro tempo.
Estava em campo aquela mágica seleção brasileira de 82.
Aquela que ensinou, a quem quis ver,
que o caminho é mais importante que a chegada.
Que, com o espetáculo do seu futebol,
nos encheu bem mais os olhos
do que com as lágrimas da sua derrota.
E que, portanto, venceu:
provou que, afinal, são os meios que justificam o fim.
Pela primeira vez,
eu levava o pequeno Eli a um estádio:
era sua estréia como torcedor.
Em campo, o Brasil dava um show,
mas o gol não vinha: intervenções milagrosas,
ora do goleiro, ora do sobrenatural, ele mesmo.
Meu sobrinho, tenso,
demonstrava a um só tempo deslumbramento com o futebol que via
e aflição com o gol que não via.
Consolei-o, lacônico, na verdade falando para mim mesmo:

“-LOGO, O GOL…”


abr 24

E para fechar:

3. Deleuze tinha razão quando diagnosticava o capitalismo rizomático, isto é, um novo modo de funcionamento do sistema capitalista, em tudo diferente do antigo modelo fordista. Trata-se de um capitalismo descentralizado, que se espalha em redes: o entretecer contínuo de novos agentes, a emergência incessante de novas possibilidades. Antes do Pirate Bay, o Napster já havia sido processado e condenado. Agora falta a justiça ir atrás do Mininova, Isohunt, Btjunkie, Torrent Reactor, Torrentz, Demonoid, Fulldls, SeedPeer, BTMon, Torrent Box, Bit Torrent Monster…


abr 22

Segundo palpite:

2. Thomas Kuhn tinha razão: o avanço científico realmente revolucionário não se dá através de acúmulo de conhecimento, como se uma descoberta fosse o desdobramento inevitável de outra anterior. Ao contrário, são as rupturas com o conjunto de regras e idéias aceitas num dado momento (os “paradigmas”) as grandes responsáveis pelos saltos de inovações. Pois bem: o que se vê em sites como o Pirate Bay é a cristalização de um novo paradigma no mundo dos negócios. Conformem-se, burocratas do velho mundo. O jogo mudou, as regras são outras – vocês não têm mais todas as cartas nas mãos. Parem de chorar. E adaptem-se, se é que querem garantir a sobrevivência daqui pra frente.


abr 21

Saiu na última sexta-feira, na Suécia, o resultado daquele que é talvez um dos julgamentos mais importantes de nosso tempo, o do Pirate Bay, site de compartilhamento de arquivos em torrent. Os fundadores do Pirate Bay foram condenados a 1 ano de prisão e a pagar indenizações à empresas de mídia (Fox, Warner, Columbia Pictures etc.), que somam 3,5 milhões de dólares. Trata-se de uma decisão na contramão da história — o futuro pertence ao copyleft, ao compartilhamento livre de arquivos, ao acesso cada vez mais democrático à informações em rede.

Alguns palpites sobre o tema:
1. Marx tinha razão. Ele afirmou no século XIX que a burguesia, após liberar uma quantidade incrível de energia revolucionária, tentaria para sempre segurá-la, contê-la o quanto fosse possível; mais ou menos como um feiticeiro que não sabe lidar direito com os poderes que trouxe à tona. É o que está acontecendo, de novo. Marx, contudo, equivocou-se num ponto. Não é o proletariado o agente da mudança. A revolução nasce em todos os lugares – nerds ambiciosos do Vale do Silício, chineses ávidos por novidades, suecos que querem bagunçar o coreto do establishment.


abr 20

Por que não pensei nisso antes?

 

Quem anda de ônibus sabe o que é

ficar ouvindo aquele vendedor de canetas Bic

(falsas) que não falham e que vem em lindas cores.

Uma é 1 real, três é 2 real!

Ou o cara do amendoim, das balas de iorgute (assim mesmo!),

dos livros de tabuada e do torrone argentino.

Ooops! Eu disse argentino?

Pois é. Eles estão de volta numa campanha

que tinha tudo para ser feita aqui com um cliente do mesmo segmento,

ou não, mas não foi.

Os caras saíram na frente.

A Arnet é um provedor de internet

e está lançando um novo pacote de serviços mais em conta.

Para divulgar a novidade,

eles foram atrás de vendedores ambulantes.

Os tais carinhas que enchem o saco do ilustre passageiro

e o resultado é genial, inclusive no projeto cenográfico.

 

Veja o vídeo com os testes.

http://www.youtube.com/watch?v=lN8usvHlYWg&eurl=http%3A%2F%2Flabomboneracriativa%2Eblogspot%2Ecom%2F&feature=player_embedded

 

Aqui os filmes com os três escolhidos.

http://www.youtube.com/watch?v=FJWq7aJxKHE&eurl=http%3A%2F%2Flabomboneracriativa%2Eblogspot%2Ecom%2F&feature=player_embedded

 

http://www.youtube.com/watch?v=88aeiThPQ0w&eurl=http%3A%2F%2Flabomboneracriativa%2Eblogspot%2Ecom%2F&feature=player_embedded

 

http://www.youtube.com/watch?v=DUQBUBtJqwE&eurl=http%3A%2F%2Flabomboneracriativa%2Eblogspot%2Ecom%2F&feature=player_embedded

 

 Enviado por Paulo Peres

ttp://www.cinemacurto.blogspot.com

 

 

 

 

 


abr 18

 

Fui assaltado.

Até aí, nada de novo:

foi apenas um número a mais

na lista de roubos e assaltos

da cidade de São Paulo.

Uma lista que, diga-se de passagem,

deve ser bem maior do que as finadas

Lista Telefônica e Páginas Amarelas.

Juntas. Mas, vamos ao assalto.

Avenida Brigadeiro Luís Antônio,

nove da noite. Alí onde era o Hotel Danúbio,

que os donos taparam todas as portas de entrada

depois de uma invasão dos sem-teto.

E que a subprefeitura teima em deixar

os postes com lâmpadas queimadas.

Dois garotos, que pareciam ter saído da antiga Febem,

me deram uma gravata, me derrubaram,

enfiaram as mãos nos meus bolsos

e foram tirando tudo.

Ou quase nada:

o cartão cancelei no dia seguinte,

a identidade era uma Xerox sem autenticação

e havia apenas um real na carteira,

por sinal velha, já na hora de ganhar outra de presente.

Mas o que me chamou a atenção

foi um deles falando para o outro:

pega o isqueiro, pega o isqueiro.

Eram craqueiros, só podiam ser.

Porque ladrão que se preza,

que tem um nome a zelar,

não rouba um isqueiro Bic.

 

Enviado por Classir Scorsato

 

 

 


abr 17

 

História de Gibrael Gibran

narrada por um amigo.

 

Em uma noite de lua metafísica,

quis ouvir de Gibrael uma reflexão sobre a palavra:

a diferença entre a rosa e o nome da rosa, coisas assim.

Fez-se um tempo de silêncio e de tensão.

Por instantes, temi que o tivesse aborrecido

ou entediado profundamente.

De repente, suas palavras saem.

Vivas, como se falassem por si mesmas.

E eu compreendo o que elas me dizem:

que a palavra é o início, é o fim,

e é o instrumento.

Assim falou Gibrael:

 

“A PALAVRA É AR, VALA, PÁ.”

 

 


abr 16

Bush e o Coringa (Heath Ledger, em “Batman, O Cavaleiro das Trevas”) num “diálogo” tenso sobre a atual crise econômica nos EUA — e sobre como sair dela.


abr 15

Por Marcelo Conde
“O Mistério do Samba” é um documentário sobre a Velha Guarda da Portela. Por não se tratar de um filme com uma estrutura narrativa muito definida, e também por ser um documentário, seus melhores momentos são justamente os que não eram previstos.

Argemiro do Patrocínio, sambista da Velha Guarda, conta, no meio do filme que, certo dia, Paulinho da Viola promoveu um encontro entre ele, Argemiro, Chico Buarque e Vinícius.

Vinícius tinha levado para o encontro a única companheira de quem jamais se separou na vida: a garrafa de uísque. Paulinho levou Argemiro.

Logo de cara, apontando para a própria garrafa, Vinícius pergunta a Argemiro:
Paulinho disse que você escreve samba bem, que faz samba com qualquer coisa. É verdade? Mostra aí. Faz um samba pra essa garrafa.

No que Argemiro respondeu:
Não sinto nada por essa garrafa. Então não posso fazer um samba pra ela. Pra fazer samba eu tenho que sentir alguma coisa.

Simples. Muito simples.


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