mar 31

 

A Sandra foi uma namorada que eu tive

quando voltei do Rio pra São Paulo.

Inteligente, culta, esperta e sensível,

Sandra era mais ou menos o tipo de mulher

que todo homem maduro gostaria de namorar.

Cheguei a ficar uns tempos na casa dela.

E só saía uma ou duas vezes por mês,

às vezes em feriados, pra ir ao Rio,

visitar os amigos e pegar uma praia.

Um dia o nosso namoro terminou.

Meses depois, na véspera de um feriado, a Sandra me ligou.

Me perguntou o que eu ía fazer no feriado

e se a gente podia passar esse feriado juntos

porque o seu namorado ía viajar.

Pensei um pouquinho e respondi:

sua filha da puta, quando eu namorava você

e viajava pro Rio num feriado,

você ligava pra quem?

 

Enviado por Classir Scorsato.

O Classir é um amigo do blog. Redator publicitário de primeira, crítico como ele só,

volta e meia  vai aparecer por aqui com suas crônicas em 30 segundos de bom humor e acidez.

 


mar 31

Por Marcelo Conde

No final do ano passado, se convencionou dizer que Mickey Rourke fez Mickey Rourke, em “O Lutador”. Eu acredito que a atuação dele foi sensacional não por ter interpretado a si próprio. Mickey Rourke não fez Mickey Rourke. Mickey Rourke fez Randy “The Ram” Robinson. E por tê-lo feito tão bem é que foi brilhante.

Randy é um lutador de luta-livre decadente, que ganha a vida como ex-astro lutando em pequenos locais também decadentes. No entanto, ao sofrer um enfarte, é obrigado a parar e, com mais tempo livre, a pensar na vida. Percebe então que deveria tentar mudar algumas coisas e, para isso, vai atrás de sua filha, de quem vivia afastado.

Quando finalmente encontra a menina é, obviamente, mal recebido. Magoada, ela não quer saber dele. Nunca mais quer viver a esperança de ter um pai. Porque acredita que, se não tem expectativas em relação a ele, não pode sofrer de novo frustações como as que sofrera anteriormente. Para ela, não esperar nada é a melhor forma de não receber nada e não sofrer por isso.

Depois de muito insistir, Randy “The Ram” Robinson consegue levar a filha para um passeio. Com mais tempo para conversar, o pai, aos poucos, é ouvido. Numa seqüência linda, consegue dançar desajeitadamente com a filha num galpão abandonado. No entanto, é aí que a cena foge do caminho fácil do melodrama e Mickey Rourke chora um choro sem expressão que parece dizer muita coisa. Sem mexer nenhum músculo do rosto, ele deixa escorrer algumas das lágrimas mais tristes do cinema. Porque, conhecendo o seu passado e com fino senso do impossível, não pede o que pareceria óbvio: para que a filha o amasse novamente. Ele sabe que a negligenciou durante muito tempo e que, por escolha própria, vive uma vida solitária – vida essa que até mesmo gosta de viver. E é por isso que não pede para que a filha volte a amá-lo. Ele diz apenas um doído, mas sincero, “eu só queria que você não me odiasse”. Talvez assim, Randy pudesse viver, ou morrer, mais tranqüilo. Sozinho, mas tranqüilo.

Mickey Rourke prova nesta cena que a quantidade de lágrimas não faz o tamanho da tristeza. Chorando pouco, ele é infinitamente mais triste do que os atores que costumam fazer caras e bocas. O sofrimento que um choro passa, segundo Rourke, é  maior quando se tenta evitar as lágrimas. E não quando se faz questão de mostrá-las.


mar 30

 

“Argentinice”

 

A PlayTV é uma emissora da Gamecorp,

um canal fechado especializado em música e games.

Neste comercial, que certamente foi veiculado na própria emissora

 e em outros canais fechados, um cara ganha a vida nas ruas

usando a longa barba como um instrumento de cordas.

Até que pinta um concorrente na praça e o coitado entra em depressão.

Com o filme, a F/Nazca levou um Leão de Prata em Cannes 2008.

Tem produtora e diretor brasileiros,

mas provavelmente foi filmado na Argentina ou Uruguai,

fato muito comum em função de custos de produção mais baixos.

Repare nas locações, tipos do elenco

e até no nome do ônibus ou de cartazes em cena escritos em espanhol.

Precisava? Acho que não.

 

http://www.youtube.com/watch?v=ZBJngtOZMK4

 

Enviado por Paulo Peres www.cinemacurto.blogspot.com

 

 

 

 

 


mar 30

A pergunta do post anterior (2) tem endereço certo. São aqueles que pensam na liberdade (individual, de expressão etc.) como tendo algum tipo de privilégio a priori que a torne legítima em si mesma. O que eles falham em enxergar é que, se numa cultura democrática – pautada pela negociação de interesses entre grupos conflitantes e pela impossibilidade de um deles sobrepujar os demais – é dado como certo que um determinado valor deve sempre ter prioridade sobre todos os outros, não cabendo nenhuma exceção, o que acontece com a validade dessa afirmação? Em outras palavras, defender um valor absoluto de uma forma absolutista não é proceder de maneira contrária ao modo de ser da própria democracia?


mar 28

 

Meu caro companheiro Lula,

e se alguém dissesse que foi assaltado ali na esquina

por um bando de sujeitos pobres, pardos, meio índios,

meio negros, olhos de drogados,

de cabeça raspada para esconder o pixaim?

Seria generalista? Seria racista?

Seria preconceituoso?

Seria preso por declarações discriminatórias?

 


mar 27

 

Por Gibrael Gibran.

 

Um dos relatos mais tristes que eu já ouvi,

emblemático de um pensamento

que às vezes me assalta,

o de que o homem é um bicho que não deu certo,

é a história do pássaro preto.

De quem, com uma lâmina,

o homem tira os olhos para que ele,

cego e em cativeiro, emita o seu canto triste,

profundo, desesperado,

um deleite magnífico para os nossos humanos,

inteligentes e sensíveis ouvidos. 

Desde que me contaram isso, todos os cantos,

de todos os pássaros cativos, só me fazem mais melancólico e só.

Quero evitá-los, fugir deles,

não deixar que esse som me agrade por um só instante,

que é a música da culpa a martelar minha cabeça.

Desde que me contaram isso,

tenho pesadelos recorrentes,

com uma única e terrível visão:

 

LÂMINA AGE, CEGA ANIMAL.

 


mar 26

De maneira geral, pode-se dizer que aqueles que priorizam a liberdade tendem à direita, e os que dão primazia à igualdade tendem à esquerda. (Berlin está entre os primeiros.) Há nuances, contudo. É possível, por exemplo, pensar que a prevalência absoluta de um valor sobre o outro não passa de mera abstração filosófica – na prática, é a relação entre eles que importa. Com os pés firmes no chão, é o caso de se perguntar: sem justiça e igualdade em níveis razoáveis, a democracia – sistema político que depende do exercício da liberdade para se qualificar como tal – é realmente viável?


mar 25

Foi Isaiah Berlin também quem observou, aliás com bastante propriedade, que a história recente da humanidade, de uns dois ou três séculos para cá, é a história da tentativa de encontrar um ótimo de equilíbrio entre igualdade e liberdade. Aí o nó: liberdade e igualdade são valores incompatíveis entre si. Se há liberdade absoluta, está aberto o caminho para o abuso da força. Os fortes triunfarão sobre os fracos, e adeus igualdade. Já a igualdade absoluta exige um poder tirânico a sufocar a individualidade de todos e cada um. A conta simplesmente não fecha; nunca fechará.

(Agora vá tentar explicar uma coisa dessas a um economista…)


mar 23

O filósofo Isaiah Berlin certa vez afirmou que foi Maquiavel o primeiro pensador a mostrar que nossas idéias e valores fundamentais não necessariamente formam um todo harmonioso. Diz-se que Maquiavel separou a política da moral e da ética. Berlin discorda. Na verdade, Maquiavel teria instituído algo muito mais profundo, uma diferenciação entre duas moralidades: a pagã, cujos valores são a coragem, o vigor, a realização pública, a ordem e o poder; e a cristã, que enfatiza a caridade, a misericórdia, o desapego aos bens mundanos, a crença na salvação e a fé no transcendental. Ou seja: não é que Maquiavel fosse maquiavélico. Ele apenas achava que um Estado pautado por princípios religiosos cristãos estaria condenado a ser economicamente pobre, politicamente frágil e militarmente incapaz.


mar 23

Gorila e Gorilas.

Um gorila tocando bateria pode ser surreal e divertido. Grand Prix do Festival de Cannes 2008, o comercial da Fallon londrina para os chocolates Cadbury traz um gorila tocando bateria ao som do hit de Phill Collins
“In the air tonight”.

http://www.youtube.com/watch?v=TnzFRV1LwIo

Pensar que eles podem ser extintos da terra é mais surreal ainda e nem um pouco divertido. A seção inglesa do IFAW, uma entidade mundial de proteção animal, pegou carona em outro tom, mas bem sacado.

http://www.youtube.com/watch?v=crij-ZcwjZU

Enviado por Paulo Peres
www.cinemacurto.blogspot.com


mar 20

Por Gibrael Gibran.

(salamaleques para Luiz Crhistello)

Naquela manhã, eu estava na cozinha desde cedo
na luta insana contra panelas, facas, temperos,
tentando assumir o audacioso cozinheiro em que eu,
marinheiro de primeira viagem, havia me transformado.
A pequena Alila aproxima-se
e quer saber o que será servido no almoço.
Sem relutar, e sem me dar conta de que Alila não fazia
a menor idéia do que era aquilo,
declino o nome do prato principal do dia:
BIFE A CAVALO.
Alila dispara uma sonora gargalhada que eu,
a princípio, não consigo acompanhar ou entender.
Ela vai para o seu caderno de desenho
e ali fica entretida por longos minutos.
Mais tarde, pouco antes da mesa ser servida,
ela me estende o bloco com um desenho fantástico.
Ali, coruja e orgulhoso, eu via uma pequena Dali.
O desenho mostrava um magnífico cavalo árabe branco,
cavalgado por uma inesperada vaca violeta.
À frente, uma corajosa menina, a cara de Alila.
O conjunto, cavalo e tão insólito cavaleiro,
prestava reverência à garota.
E, da boca da menina, saía um “baloon”
que completava a cena e, ao mesmo tempo,
explicava a gargalhada de Alila, de minutos antes:

“OLÁ, VACA A CAVALO!”


mar 19

Festa no Castelo de Itaipava. Os três amigos, devidamente fantasiados – “Conga, a mulher Gorila”, “Capitão Melancia” e “Sheik Árabe” –, beberam e se esbaldaram  até não poder mais. Mas ao invés de dormir em Itaipava, como seria aconselhável, decidiram voltar de carro, na mesma noite, para o Rio. Por sorte, um fiapo de responsabilidade: Conga, a Mulher Gorila, jogou o carro no acostamento da estrada e decretou que iriam dormir ali.

Acordou com o policial batendo no vidro. Estacionamento em local proibido. Multa. Pior: era caso para apreensão de veículo. E aquele cheiro de álcool, hein?

Conga e Capitão Melancia protestaram, argumentaram, pediram, suplicaram, depois protestaram novamente – e nada. Enquanto isso, o Sheik continuava desmaiado no banco de trás, alheio a tudo.

– Ô gorila, vai lá acordar o camarada. Todo mundo pra delegacia.

Conga sacudiu o amigo, e explicou brevemente o que se passava. O Sheik ergueu o corpo, passou as mãos no rosto, olhou para os lados, bocejou. Pegou o turbante e o ajeitou na cabeça. Saiu do carro e, enquanto se espreguiçava, jogando os braços para cima, anunciou:

– Bom dia. Não há nada que os petrodólares não comprem.


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