Por Marcelo Conde
No final do ano passado, se convencionou dizer que Mickey Rourke fez Mickey Rourke, em “O Lutador”. Eu acredito que a atuação dele foi sensacional não por ter interpretado a si próprio. Mickey Rourke não fez Mickey Rourke. Mickey Rourke fez Randy “The Ram” Robinson. E por tê-lo feito tão bem é que foi brilhante.
Randy é um lutador de luta-livre decadente, que ganha a vida como ex-astro lutando em pequenos locais também decadentes. No entanto, ao sofrer um enfarte, é obrigado a parar e, com mais tempo livre, a pensar na vida. Percebe então que deveria tentar mudar algumas coisas e, para isso, vai atrás de sua filha, de quem vivia afastado.
Quando finalmente encontra a menina é, obviamente, mal recebido. Magoada, ela não quer saber dele. Nunca mais quer viver a esperança de ter um pai. Porque acredita que, se não tem expectativas em relação a ele, não pode sofrer de novo frustações como as que sofrera anteriormente. Para ela, não esperar nada é a melhor forma de não receber nada e não sofrer por isso.
Depois de muito insistir, Randy “The Ram” Robinson consegue levar a filha para um passeio. Com mais tempo para conversar, o pai, aos poucos, é ouvido. Numa seqüência linda, consegue dançar desajeitadamente com a filha num galpão abandonado. No entanto, é aí que a cena foge do caminho fácil do melodrama e Mickey Rourke chora um choro sem expressão que parece dizer muita coisa. Sem mexer nenhum músculo do rosto, ele deixa escorrer algumas das lágrimas mais tristes do cinema. Porque, conhecendo o seu passado e com fino senso do impossível, não pede o que pareceria óbvio: para que a filha o amasse novamente. Ele sabe que a negligenciou durante muito tempo e que, por escolha própria, vive uma vida solitária – vida essa que até mesmo gosta de viver. E é por isso que não pede para que a filha volte a amá-lo. Ele diz apenas um doído, mas sincero, “eu só queria que você não me odiasse”. Talvez assim, Randy pudesse viver, ou morrer, mais tranqüilo. Sozinho, mas tranqüilo.
Mickey Rourke prova nesta cena que a quantidade de lágrimas não faz o tamanho da tristeza. Chorando pouco, ele é infinitamente mais triste do que os atores que costumam fazer caras e bocas. O sofrimento que um choro passa, segundo Rourke, é maior quando se tenta evitar as lágrimas. E não quando se faz questão de mostrá-las.