fev 27

Por Gibrael Gibran

Salamaleque.

Meu querido amigo entendera errado o que, na verdade, eu queria que ele visse no clube. A resposta que eu queria dar podia até ser mais longa, mas de conteúdo mais simples e material. Menos profunda, digamos.

Então, peguei-o pelo braço e nos encaminhamos para a sala ao lado, onde a mais linda mulher que eu jamais vira, a princesa imaginária de todos os nossos mais fantasiosos delírios juvenis, reinava, real, no seu tabuleiro de gamão.

Por um instante, ela desviou a atenção do jogo e nos olhou, iluminando as nossas pequenas almas. Naquele mesmo instante, meu amigo compreendeu, antes de que eu dissesse, o que eu tinha a dizer:

O ÂMAGO DA VIDA É A DIVA DO GAMÃO.


fev 25

Mais uma história verídica (ou quase), apropriada para o carnaval.

Era a noite do décimo terceiro aniversário de casamento. Mas calhou de ele ficar trabalhando até tarde na empresa, e sempre que isto acontecia alguém logo sacava uma garrafa de uísque, copos e muitas pedras de gelo. A medida que o doze anos ia descendo, revigorando idéias e conversas que não tinham nada a ver com o trabalho, grande parte do mundo exterior ia ficando distante, longínquo, um lugar remoto absolutamente alheio àquela mesa de escritório na qual viviam e morriam estatísticas de mercado, projeções de receitas, cortes de pessoal e toda sorte de gráficos muito complexos.

Esqueceu-se da data e da mulher, que o esperava em casa para jantar.

Lembrou por acaso, com um “estalo”, mais ou menos na mesma hora em que Cíntia (nome divulgado) abocanhava o saquinho de sua orelha direita com os lábios grossos, carregados de batom e expectativas de lucro. Sentiu no estômago o aperto, e se recompôs na cadeira, erguendo-se de uma vez só, num movimento brusco. Olhou para o lado e viu os dois amigos muito entretidos, cada qual com uma morena no colo, como polvos ávidos pela exploração de recônditos escondidos, dizendo sacanagens que se perdiam em meio à fumaça dos cigarros e à música alta que impregnavam o lugar. Tomado pelo senso de urgência, levantou-se, disparou em direção à saída e falou a si mesmo – “Fodeu”.

E então, na porta daquele estabelecimento comercial de nobre reputação, avistou um carro de polícia – e teve a idéia que lhe salvaria o casamento. Chegou à porta de casa cabisbaixo e trôpego, os policiais o retirando do camburão com a delicadeza habitual, para desespero da mulher, que sorria e chorava e perguntava com a voz trêmula “o que aconteceu, meu amor? você está bem?”, enquanto lhe passava a mão na testa e afagava os cabelos.

– Minha senhora, nós recolhemos o seu marido por volta das dez e meia da noite, apagado no chão da rua. Aí levamos para a DP, demos uma sacudida nele pra ver se acordava. Demorou, mas… Bem, está aí. Cuidado, que ele ainda está meio grogue.


fev 22

(História verídica, com exceção de um ou outro detalhe)

Casou-se pela quarta vez. Podiam acusá-lo de tudo, de que era um homem instável, temperamental – menos de que não continuava acreditando na possibilidade do amor, e na vida a dois. Estava novamente apaixonado.

A cerimônia discreta, porém bonita, encheu de água os olhos de familiares e amigos mais próximos. Foi numa tarde de sexta-feira, quente e luminosa, anterior ao início do carnaval. No dia seguinte, seguiriam rumo ao Caribe.

Chegando em casa, ela foi tomar um banho, ele um uisquinho. Toca o interfone.

– João? Vamos tomar umazinha. A última.

– Guentaí.

Pegou a carteira, o maço de cigarro, e foi. Voltou na quarta-feira de cinzas, vestindo uma túnica branca e com um ramo de folhinhas verdes preso atrás da orelha.

Além da mulher, aguardavam-no familiares consternados, amigas enraivecidas, lenços úmidos espalhados sobre a mesa, e um advogado. Não foi uma cena agradável de se ver, os berros, as unhadas e tapas desferidos numa intensidade tal que ele depois recordaria como sendo “mais rápido que a minha velocidade de pedir desculpa”.

Está no sexto casamento, e se lhe perguntam, diz que o amor é a melhor coisa que existe.


fev 20

História de Gibrael Gibran narrada por um amigo.

Quando dúvidas metafísicas me atormentavam, a ponto de tomar conta da minha alma e até do meu corpo, eu recorria a Gibrael em busca de um pouco de luz, da resposta pela palavra que sabe ir e vir.
Era um daqueles dias: eu precisava saber qual era, afinal, a essência da vida. Gibrael não vacilou. Convidou-me a ir com ele ao clube de gamão em que ele reinava, soberano, em todos os torneios.
Enquanto ele jogava uma partida, fiquei, em silêncio, assistindo. Vendo os dados, que não lhe eram generosos, tive a nítida visão de que Gibrael estava perdido.
De repente, pelo menos aos meus olhos, vem a reviravolta, percebida no enigmático sorriso de Gibrael. E era como se ele já soubesse que a partida estava ganha, desde sempre. Que os dados (az-zhar, em árabe) não determinam o destino do jogo e da vida.
Encorajei-me e me precipitei, respondendo a mim mesmo:

O GAMÃO É O ÂMAGO.

(essa história continua)


fev 19

No primeiro filme da trilogia Matrix, Morpheus (Lawrence Fishburn) finalmente encontra Neo (Keanu Reeves). O trecho que se segue é parte do primeiro diálogo travado pelos dois. Neo estava ainda preso à Matrix.

Morpheus: “Let me tell you why you’re here. You’re here because you know something. What, you can’t explain, but you feel it. You felt it your entire life: that is something is wrong with the world. You don’t know what it is, but it’s there, like a splinter in your mind, driving you mad… It is feeling that has brought you to me. Do you know what I am talking about?”

Neo: “The Matrix?”

Morpheus: “Do you want to know what it is? The Matrix is everywhere. It is all around us, even now, in this very room. You can see it when look out your window, or when you turn on your television. You can feel it when you go to work, when you go to church, when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth.”

Neo: “What truth?”

Morpheus: “That you are a salve, Neo. Like everyone else you were born into bondage, born into a prison that you cannot smell or taste or touch. A prison for your mind.”


fev 18

“Se perguntassem ao potencias clientes da minha fábrica o que eles gostariam para se locomoverem mais rápido,  diriam: mais cavalos puxando as carroças”.

As palavras não são exatamente estas. Mas o conceito é. A frase foi dita por Henry Ford, nas vésperas de lançar o primeiro automóvel. Ainda bem que ele não submeteu o invento a pré-testes, pesquisas, discussões de grupo. Sábio. Acreditou que o consumidor só julga e avalia com referências ao que ele já conhece. E fica como uma barata tonta, diante de uma novidade absoluta. Taí uma boa discussão entre criativos e pesquiseiros. Como equilibrar as informações de uma pesquisa com a fúria irresponsável entre aspas de quem busca sempre romper com o estabelecido? Pesquisa é luz ou é poste para bêbado se encostar, com medo de dar um passo à frente? Enquanto você pensa sobre isso, vá se guardando para quando o carnaval chegar. E a propósito do evento pagão, três frases que valem reflexões. Dica: o autor é gringo, poeta mundano, transgressor, excêntrico e extravagante. Nunca sambou no pé. Mas soltaria a franga na Marques de Sapucaí.

“A máscara diz mais do que a face.”

“A vida é muito importante para ser levada a sério.”

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”

… e até quarta-feira.


fev 17

Obviamente, “Matrix” não é exatamente um filme “ruim” – pelo menos não a primeira parte da triologia. (As duas restantes não são ruins, são péssimas.) Ainda assim, se tiver algum lugar no panteão futuro de películas memoráveis, será provavelmente em função da revolução visual iniciada por seus efeitos especiais. Mas o conteúdo merece atenção, e elogios. Diz-se que “Matrix” é uma ótima metáfora. Vale pensar nas possibilidades: metáfora de quê?

A primeira é pensar que a Matrix é o conjunto de imagens e sensações que impactam os sentidos, impressões superficiais que pouco dizem a respeito de como a realidade é em si mesma. Em outras palavras, é o “mito da caverna” reeditado. O conhecimento (filosofia) seria então o antídoto, a pílula vermelha que permitiria desvelar o véu da aparência e atingir a essência da natureza e do homem.

Outra hipótese é pensar na cultura – o conjunto de costumes, crenças e regras que governam o comportamento dos homens – como a Matrix. A saída, neste caso, estaria na homem que “inventa” a si próprio, no sentido nietzschiano: o indivíduo que toma consciência dos grilhões impostos pela tradição, rebela-se contra eles e se dedica a criar os padrões pelos quais ele próprio será julgado posteriormente.

Ou pode-se ainda dizer que a própria linguagem já é a Matrix, dado que é através dela que constituímos e experimentamos o mundo – não há pensamento fora da linguagem. Aí as coisas complicam bastante, pois não há saída, escape, ou pílula vermelha possível. Já se disse que nós não falamos uma língua, somos falados por ela.

Seja como for, é impossível não chegar ao final do filme com a sensação de que Morpheus não estava falando metaforicamente quando disse a Neo que nós humanos não passamos de simples pilhas, unidades descartáveis de energia destinadas a movimentar uma engrenagem que nos ultrapassa e escraviza. É impossível não sair do filme com a certeza de que, na vida real, a vitória da burocracia e dos frios de coração já é completa faz tempo, e também que, por pior que seja, não há vida fora do sistema.

Paradoxalmente, eis aí uma injeção de ânimo. Toda vez que vão lutar contra a Matrix, Neo e seus companheiros o fazem de dentro dela. Como a nos lembrar de que (para usar uma última metáfora) só se seqüestra um avião estando a bordo dele.


fev 16

Faz algum tempo, o Collor almoçava tranquilamente quando, de repente, um rapaz lhe arremessou um prato de macarrão ao sugo na cara — o que nos põe a pensar. Se a forma como as pessoas se agridem revela muito sobre a sociedade da qual fazem parte, então o episódio parece confirmar nossa vocação para a novela e a esculhambação de um modo geral. Pense nas hipóteses: dentre todas as maneiras de se agredir um ex-presidente num restaurante, o macarrão. Vê coincidência aí quem quiser. Na Argentina, Collor seria linchado por um grupo de cabeludos. Nos EUA, é certo que encontrasse o destino num tiro preciso de fuzil. No Brasil, ao invés de sangue, molho de tomate.

[Do livro "Gororoba" - Editora Farsa]


fev 13

Por Said Dias (interino do interino)

História de Gibrael, narrada por um amigo.

Gibrael e eu estávamos em Gaza quando
Sem aviso, as paredes começaram a vibrar
Estrondos, escombros
Pessoas e notícias desesperadas correndo pelas ruas
Após tratar de manter os seus em segurança
Gibrael foi ver de perto o horror,
O horror — “Haverá para a paz esperança?”
Uma trégua ao menos, rezava
Todos os dias, até que os mísseis cessaram de cair
Gibrael saiu, passou por hospitais cheios e pracinhas vazias
E foi ao litoral
Ao invés da água verde, estendida até o horizonte
Vislumbrou o negro da máquina militar israelense
Sem perder tempo, correu a avisar um amigo
Pacifista como ele, e se pôs a gritar:

A TROPA APORTA!


fev 12

Num churrasco, uma estrela de primeira grandeza da MPB brasileira encontra João Brasil, autor de hits como “Pau molão”, “O carnaval acabou com o meu fígado” e o clássico “Baranga”. Transbordando simpatia, ela faz questão de ir cumprimentá-lo:

Estrela de primeira grandeza da MPB: “Você é o João Brasil? Já ouvi suas músicas, bacanas.”

João Brasil: “Eu… já ouvi as suas também!”


fev 11

Assistir “Violência Gratuita” (“Funny Games”) é uma experiência terrível. Você sai do filme meio embrulhado, atordoado, e se perguntando porque diabos alguém investiu tempo e dinheiro para nos deixar exatamente assim, embrulhado e atordoado.

Resumindo, é o seguinte: dois rapazes torturam e assassinam a esmo. The End.

Os títulos, tanto o original quanto a “tradução”, explicam o que há para ser explicado. E o que há para ser explicado é, paradoxalmente, aquilo que a princípio parece não ter explicação: a violência praticada como um jogo divertido, e portanto gratuita.

Trata-se da violência que desafia clichês sociológicos, que não se explica em função da ausência, seja de dinheiro, perspectiva, sanidade, educação ou estrutura familiar. É o mal em estado puro; não possui outra finalidade a não ser fazer o mal. Mas é, ao mesmo tempo, o retrato de um sintoma. Algo de muito errado deve haver com o tempo e o lugar onde o impulso brutal de torturar e matar é fonte de gozo individual.

Aí o mérito –  não apenas mostrar que o homem é uma espécie que claramente não deu certo, mas nos fazer sentir isso.


fev 10

“Até julho sai de moda”

Acredite. A frase apareceu em 1956 num editorial da Variety, revista novaiorquina de críticas e tendências, a respeito da nova onda musical da época, chamada Rock and Roll.

É o choque do novo fazendo suas vítimas. A propósito, suponho que a Coca-Cola antes de ser lançada não resistiria a um pré-teste entre potenciais consumidores. Quem tomaria um remédio preto, cheio de bolinhas que irritam língua e garganta, doce de doer o queixo, com nome de goma arábica e ainda inserido numa garrafa que mais parece uma peituda boazuda de Hollywood?

Ainda sobre a fobia do ser humano comum às novidades, procure no YouTube dois vídeos brilhantes: Stone and Stone Wheel e Stone and Stone Fire.

Voltando ano nosso Quiz, uma Coca-Cola para quem acertar a próxima. (Olga, não vale colar…)

“Se perguntassem ao potencias clientes da minha fábrica o que eles gostariam para se locomoverem mais rápido, diriam: mais cavalos puxando as carroças”.


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