Mais uma história verídica (ou quase), apropriada para o carnaval.
Era a noite do décimo terceiro aniversário de casamento. Mas calhou de ele ficar trabalhando até tarde na empresa, e sempre que isto acontecia alguém logo sacava uma garrafa de uísque, copos e muitas pedras de gelo. A medida que o doze anos ia descendo, revigorando idéias e conversas que não tinham nada a ver com o trabalho, grande parte do mundo exterior ia ficando distante, longínquo, um lugar remoto absolutamente alheio àquela mesa de escritório na qual viviam e morriam estatísticas de mercado, projeções de receitas, cortes de pessoal e toda sorte de gráficos muito complexos.
Esqueceu-se da data e da mulher, que o esperava em casa para jantar.
Lembrou por acaso, com um “estalo”, mais ou menos na mesma hora em que Cíntia (nome divulgado) abocanhava o saquinho de sua orelha direita com os lábios grossos, carregados de batom e expectativas de lucro. Sentiu no estômago o aperto, e se recompôs na cadeira, erguendo-se de uma vez só, num movimento brusco. Olhou para o lado e viu os dois amigos muito entretidos, cada qual com uma morena no colo, como polvos ávidos pela exploração de recônditos escondidos, dizendo sacanagens que se perdiam em meio à fumaça dos cigarros e à música alta que impregnavam o lugar. Tomado pelo senso de urgência, levantou-se, disparou em direção à saída e falou a si mesmo – “Fodeu”.
E então, na porta daquele estabelecimento comercial de nobre reputação, avistou um carro de polícia – e teve a idéia que lhe salvaria o casamento. Chegou à porta de casa cabisbaixo e trôpego, os policiais o retirando do camburão com a delicadeza habitual, para desespero da mulher, que sorria e chorava e perguntava com a voz trêmula “o que aconteceu, meu amor? você está bem?”, enquanto lhe passava a mão na testa e afagava os cabelos.
– Minha senhora, nós recolhemos o seu marido por volta das dez e meia da noite, apagado no chão da rua. Aí levamos para a DP, demos uma sacudida nele pra ver se acordava. Demorou, mas… Bem, está aí. Cuidado, que ele ainda está meio grogue.