Imagine um longa metragem feito apenas de sequências nas quais dois jovens fazem sexo (explícito), usam drogas (de diferentes tipos) e escutam rock n’ roll (em casa e em shows). Não há história de amor, diálogos “cabeça”, pretensões políticas, nada.
“9 canções” foi massacrado pela crítica. “Apelativo”, “vazio” – daí para baixo.
Mas sua maior qualidade é justamente visitar o vazio, e se demorar nele. O filme é apelativo apenas para aqueles que não superam o choque ou o desconforto em ver cenas de sexo explícito, e vazio apenas para quem o assiste embebido em nostalgia. Winterbottom registra a atualização de um estilo de vida que floresceu com a geração de 68, o bom e velho “sexo, drogas e rock n’ roll”. E o que se vê na tela é que, para a juventude contemporânea, o “sexo, drogas e rock n’ roll” não cumpre qualquer função catártica, libertadora ou política. Foi privatizado. É questão de gozo individual.
Tem outra coisa. É incrível – e aqui vai uma constatação óbvia, porém incontornável –, mas permanece ainda hoje esta estranha inversão de valores que autoriza e incita o uso de imagens violentas, mas reprime ativamente as de conotação sexual. Pode-se filmar um pâncreas explodindo com um tiro de escopeta calibre 12 à queima roupa, ou um globo ocular sendo lentamente seccionado por uma navalha enferrujada, tudo em câmera lenta e closes muito reveladores; mas, se se vislumbrar a imagem de um homem e uma mulher fazendo amor de verdade, lá estarão espectadores enfurecidos a levantar de suas poltronas e acusar “isto não é cinema”. Mas é questão de tempo, creio, até que esta moralidade torta encontre o esquecimento merecido, e se torne outro exemplo passado de nosso obscurantismo, mais ou menos como as fogueiras medievais nos parecem hoje. Quando isto acontecer, é provável que os críticos olhem para trás e digam que “9 canções” não era afinal tão ruim assim, e que ajudou a pavimentar o caminho.
E atire a primeira pedra quem não ficou com um tesãosinho na cena em que Mat venda os olhos de Lisa, e a amarra na cama!