jan 31

O escritor Gilberto Braga expert também em Billy Wilder, me diz que o mestre não foi tão feliz em “A Primeira Página”, cuja peça original é infinitamente melhor.
Recomenda “Esta loura vale um milhão”  e “Beija-me, idiota”, duas pérolas do mesmo diretor, além de “Jejum de amor”, de Hawks.
Três filmes imperdíveis.
Gilberto ainda acrescenta ao blog uma historinha deliciosa:

“Quanto Billy Wilder tinha uns 90 e poucos anos, fez um livro de memórias com um amigo alemão, que o entrevista (foi publicado no Brasil: O resto é loucura). O amigo perguntou se ele não achava os filmes atuais um pouco longo demais. Ele respondeu: meu filho, na minha idade, a gente acha tudo muito longo. As únicas duas coisas que a gente nunca acha suficientemente longas são nossa própria vida e o nosso próprio pau (one’s one life e one’s own dick). Era um dos grandes gênios do século 20, não?”


jan 30

Por Gibrael Gibran

Salamaleque.

Por incrível que pareça,
foi também com a pequena e brava Alila
que eu aprendi a vencer meus medos,
minhas inquietudes, minhas angústias,
nos momentos de solidão.
Como o personagem de um filme,
Alila fizera do dedo indicador da sua mão direita
um companheiro inseparável,
a quem dera cara, voz, caráter, e até um nome.
Algumas noites, eu ouvi os dois dialogando,
pouco antes de Alila adormecer,
com a tranqüilidade de quem se sabe protegida.
Não me envergonho de dizer que, inspirado por Alila,
fiz do meu indicador direito um amigo e confessor,
a quem dei o nome de “iluminado”.
Era sempre a ele que eu recorria,
sobretudo naquelas noites que parecem sem fim
e sem dia seguinte,
quando a gente se sente absolutamente abandonado,
sem ter ninguém.
Na noite em que Ada, que eu pensei que fosse minha,
saíra da minha vida para sempre:

-Ó, DEDO MEU…QUEM É MEU? QUEM, Ó DEDO?


jan 29

Diálogo virtual, travado entre dois comentaristas do site do Pedro Doria (o assunto era o discurso de Obama feito às nações islâmicas):

Chesterton: “Islamismo é expansionista na ponta da faca.”

Jean: “Tem razão! Eu acho que os cristãos deviam processar esse pessoal por plágio!”


jan 28

Billy Wilder é um mestre.
Diretor de clássicos como “Quanto mais quente melhor”
e “Se meu apartamento falasse”, teve o privilégio de contar
com Jack Lemonn e Walter Matthau
na frente da sua câmera precisa em “A Primeira Página”.
Acabei de rever este filme,
onde essa dupla monstruosa conduz
uma das comédias mais brilhantes da história do cinema.
Nada é gratuito. Um detalhe leva ao outro.
Cada cena é uma preparação para a seguinte,
com o timming perfeito que,
quando não faz a gente gargalhar,
produz aquele sorriso interior
de quem foi atingido por algo verdadeiramente inteligente.
Chega de adjetivos.
Essa comédia é para o ser humano que se entrega ao cinema
como simples espectador, que só quer sair leve
e feliz da frente de qualquer tela.
É também recomendada a profissionais de comunicação,
criação e redação, publicitários, jornalistas e escritores
que convivem atormentados
com angústias criativas e éticas,
além de pressões de tudo quanto é lado.
Deixem-se divertir. Estamos precisando do
bom e eterno Billy.


jan 27

A Lu começou escrevendo sobre o machismo, o Ricardo Cabral discordou de um aspecto “lateral” do argumento, e pronto – eis uma conversa que vale a pena. Resumindo bastante, é o seguinte: ela sustenta que a pornografia apenas “reflete as características do mundo em que existe”; ele, que não se pode desprezar o “poder de contágio social da indústria pornô”.

Aproveitando o embalo das nove canções, peço licença para entrar no debate.

A pornografia é um discurso – e o discurso não apenas representa uma realidade existente, mas constrói esta realidade no processo de representá-la. Obviamente, muito do que hoje se vê em filmes pornôs é o reflexo de processos sociais mais amplos, como por exemplo o ideal de competência baseado mais no vigor físico do que na comunhão afetiva. Mas ao traduzir em imagens traços sociais mais gerais – ao conferir materialidade ao ideal de performance atlética, para ficarmos no exemplo acima –  não estaria o cinema pornô contribuindo para a sua  consolidação, no que diz respeito especificamente ao sexo? Não estaria ajudando também a criar novos parâmetros, ou uma nova gramática sexual?

O raciocínio fica mais claro se pensarmos na violência. Ninguém em sã consciência diria que um filme violento “cria” a realidade que pretende representar. Mas pode-se perfeitamente afirmar que o cinema ajuda a alterar nossa sensibilidade em relação ao violento, e que, em assim fazendo, contribui também para mudar as manifestações de violência. Não é preciso evocar a questão do espetáculo (até porque o próprio conceito de espetáculo já foi espetacularizado); basta reconhecer o paradoxo de que mesmo a denúncia da violência pode acabar incitando-a, quanto mais não seja pela sedução exercida pela mímese.


jan 27

Mais Terra para o Oeste.
Esta é a tradução literal de Westmoreland, o general comandante das tropas americanas na Guerra do Vietnã. Coube a ele dizer “O povo vietnamita não dá valor à vida”, eternizada no documentário Hearts & Minds. Na edição do filme, na seqüência imediata ao depoimento do general, a cena de um camponês do Vietnãdesesperado diante do seu filho morto. A primeira vez que assisti a este documentário – sim, não é obra para ser ver uma vez só -, o cinema veio abaixo em palmas e vibrações.
E mudando o rumo da prosa, já que falei de cinema, vamos a uma frase surpreendente:

“O cinema será encarado, por algum tempo, como uma curiosidade científica, mas não tem futuro comercial.”


jan 26

Juliana é a típica menina de família.
Meiga, inteligente, delicada.
Boa amiga, filha zelosa, dedicada.
Mas naquele dia, em plena festa,
estava com o diabo no corpo.
E conhecer Gustavo veio a calhar.
Após trocarem meia dúzia de palavras,
já se atracavam na varanda.
Beijos na boca, no pescoço, nos seios.
Sussurros no ouvido, mãos na cintura,
nos quadris, por toda a parte.
Juliana estava quase pegando fogo.
Gustavo não acreditava: “Hoje vou me dar bem”.
Quase tiraram a roupa ali mesmo, na varanda,
mas, ao perceberem os olhos curiosos a observá-los,
resolveram procurar um lugar mais reservado.
Foram parar na escada do prédio dele. Ali pertinho.
O sexo foi forte, animal. Ágil, instintivo.
E o orgasmo de Gustavo não tardou a chegar.
Uma vez já saciado, finalmente
falou aquilo que estava com vontade de dizer
desde que botara as mãos naquele corpo.
Só não tinha dito por medo de afastar a menina
antes de conseguir o que queria.
- Prostituta! Não vai cobrar nada pelo serviço não, sua vadia?
Juliana não tremeu.
- Hoje é de graça. Mas eu quero bis.

Enviado por Mariana Valle


jan 26

Imagine um longa metragem feito apenas de sequências nas quais dois jovens fazem sexo (explícito), usam drogas (de diferentes tipos) e escutam rock n’ roll (em casa e em shows). Não há história de amor, diálogos “cabeça”, pretensões políticas, nada.

“9 canções” foi massacrado pela crítica. “Apelativo”, “vazio” – daí para baixo.

Mas sua maior qualidade é justamente visitar o vazio, e se demorar nele. O filme é apelativo apenas para aqueles que não superam o choque ou o desconforto em ver cenas de sexo explícito, e vazio apenas para quem o assiste embebido em nostalgia.  Winterbottom registra a atualização de um estilo de vida que floresceu com a geração de 68, o bom e velho “sexo, drogas e rock n’ roll”. E o que se vê na tela é que, para a juventude contemporânea, o “sexo, drogas e rock n’ roll” não cumpre  qualquer função catártica, libertadora ou política. Foi privatizado. É questão de gozo individual.

Tem outra coisa. É incrível – e aqui vai uma constatação óbvia, porém incontornável –, mas permanece ainda hoje esta estranha inversão de valores que autoriza e incita o uso de imagens violentas, mas reprime ativamente as de conotação sexual. Pode-se filmar um pâncreas explodindo com um tiro de escopeta calibre 12 à queima roupa, ou um globo ocular sendo lentamente seccionado por uma navalha enferrujada, tudo em câmera lenta e closes muito reveladores; mas, se se vislumbrar a imagem de um homem e uma mulher fazendo amor de verdade, lá estarão espectadores enfurecidos a levantar de suas poltronas e acusar “isto não é cinema”. Mas é questão de tempo, creio, até que esta moralidade torta encontre o esquecimento merecido, e se torne outro exemplo passado de nosso obscurantismo, mais ou menos como as fogueiras medievais nos parecem hoje. Quando isto acontecer, é provável que os críticos olhem para trás e digam que “9 canções” não era afinal tão ruim assim, e que ajudou a pavimentar o caminho.

E atire a primeira pedra quem não ficou com um tesãosinho na cena em que Mat venda os olhos de Lisa, e a amarra na cama!


jan 23

Por Gibrael Gibran

Salamaleque.

Desde cedo, a pequena Alila me fez ver que seu nome não era um acaso. Antes, era um destino. De fato, ela herdara da família a arte de ler e viver de trás pra frente. Maktub. Estava escrito.

Nos dias que passamos juntos, ela, maravilhada, vinha me contar suas descobertas, que é por onde toda iniciação passa: ela me contava que Roma é amor, que missa é assim, que Eva é ave. E brincava de inventar nomes de histórias para histórias que ela ainda ia inventar para aqueles nomes: a mala e a lama, a vida é a diva, o lobo ama o bolo. E por aí ia, fazendo dos verbos ser e amar os seus melhores companheiros nessa viagem.

Foi assim que, certa manhã, na mesa do café, Alila me estendeu, carinhosamente, um prato de ovos mexidos. Com olhos marotos, Alila completou aquele gesto de amor com esta singela revelação:

O VÔ AMA OVO.


jan 22

Sala de aula, todos se preparando para o vestibular. A jovem professora de sociologia, muito admirada não apenas por suas qualidades pedagógicas, procura usar de exemplos práticos para introduzir o pensamento de um dos pais da disciplina, Emile Durkheim.  [Durkheim falava de como a sociedade se impõe sobre o indivíduo: os sistemas de coerção social, o Direito etc.]

– Imaginem só, eu acordo um belo dia e resolvo que vou sair pelada na rua. Mas eu não posso fazer isso. Se eu sair pelada na rua, vou ser presa, e…

Aluno, interrompendo:

– Não, professora. Se você sair pelada na rua, quem vai preso sou eu!


jan 21

José Saramago comenta a posse de Obama em seu blog:

“Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.”


jan 20

“Muitas crianças palestinas estão morrendo
e quase nenhuma criança israelense foi morta.
Por quê? Porque nós cuidamos das nossas crianças”.

Pasmem. Shimon Peres, Prêmio Nobel da Paz,
proferiu esta frase em meio a uma entrevista.
Não há racionalidade que justifique tamanha estupidez.
Quanto mais a inteligência de alguns historiadores,
articulistas e jornalistas tente defender
a legitimidade da tal “reação desproporcional”,
mais ganha corpo a infâmia.

O que me faz lembrar outra pérola do cinismo e da arrogância,
dita por um general americano
sobre o imbatível povo vietnamita no documentário
“Hearts and Minds”.
Alguém se lembra da frase?
E do general, cujo nome era um irônico trocadilho?


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