nov 29

Levei minha mulher ao médico.
Check up obrigatório para quem trabalha em agência de propaganda.
Chegamos dez minutos antes.
Gentil, a secretária nos atendeu.
- Deve ter havido algum engano, senhora.
O Dr. Ribeiro não atende de manhã.
- Mas eu marquei, nove e meia, quinta feira, aqui no Einstein.
- Não é possível, de manhã ele atende no Incor.
Virou, mexeu. Estava na agenda.
- Ah, seu nome está aqui. Marcado para 9 e meia.
Da noite.
- Da noite?!
- Ele atende até às 23 h. Mas acho que tenho uma solução.
Dr. Ribeiro excepcionalmente esta manhã veio visitar um paciente internado.
Vou tentar localizá-lo.
Quem sabe?
Em menos de uma hora, abriu sua agenda e nos atendeu.
Atencioso. Educado. Profissionalíssimo.
De gravata. Admiro médico de gravata.
(Besteira. Mas passa confiança e respeito pelo paciente.)
Gostei tanto que resolvi também fazer um check up.
E marquei a consulta: domingo, meio dia e quarenta.
Ô povinho laborioso.


nov 28

(História de Gibrael Gibran, contada por um amigo anônimo)

Gibrael orgulhava-se de sua farta e eclética biblioteca.
Para seu total desespero, um rato deu de freqüentá-la.
Irado, Gibrael analisou seus hábitos e gostos literários:
percebeu, então, que o rato era um adepto
de literatura francesa. Que jamais repetia autores.
E que coroava seu perfil de “serial-killer”
com a assinatura final: roía e estraçalhava
sempre uma única página, a 121.
Gibrael estava diante de um verdadeiro,
provocador e insolente rato de biblioteca.
Não perdeu tempo:
comprou em um sebo um livro de André Gide,
desses raros autores dos quais ele não tinha
um exemplar em casa. Abriu na página 121 e
nela colocou poderoso veneno.
Para completar a vingança, acrescentou por escrito:

E DIGA OI,  RATO OTÁRIO,  A GIDE.


nov 27

“Em Roma, aja como os romanos”, diz o ditado. Tomado por uma súbita vontade de fazer xixi, o rapaz levantou-se da mesa e foi pedir informações ao garçom:

“Prego, signor…”

“Martelo, que eu também sou brasileiro. O banheiro é a segunda porta à direita.”


nov 26

A sociedade condena as drogas, mas adora certas coisas que simplesmente não existiriam sem elas. Jazz é um bom exemplo. Nunca teria chegado aonde chegou, ou alcançado as sonoridades que alcançou, não fossem os estados alterados da mente. Charlie Parker era viciado em heroína. Mingus tomava LSD. Miles Davis encarava heroína, LSD e o que mais parasse na frente dele. E tem a maconha, claro. Todo músico de jazz é maconheiro, até que prove o contrário.

[Do livro "Gororoba" - Editora Farsa]


nov 25

Resultados da terça anterior:

1. “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.”
SHAKESPEARE

2. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”.
CLARICE LISPECTOR

3. “Quem não gosta de estar consigo mesmo, em geral, está certo.”
COCO CHANEL

Para pensar:

1. “Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”

2. “Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.”

3. “Desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”


nov 24

(História de Gibrael Gibran narrada por um amigo anônimo)

Eu fui testemunha de um desses raros momentos
em que Gibrael, tomado de sagrada ira,
perdeu totalmente a compostura e apelou para o linguajar chulo.
Creio que, conhecendo as razões, o leitor saberá,
como eu, compreendê-lo e perdoá-lo.
Lendo uma reportagem, Gibrael tomou conhecimento
de que certo país governado por um ditador famoso
por seus delírios sádicos, começara a realizar experiências cruéis
e perversas com o órgão genital feminino.
Seguiu-se seu justo e incontido desabafo:

AI, A BOCETA É ATÉ COBAIA.


nov 21

Friedman venceu e durante muito tempo convenceu – mas, com o caos instalado no vácuo desta crise do subprime, isto está mudando. O que é espantoso não é a evidente contradição de que, quando algo dá errado e os investidores são tomados pelo pânico, comportando-se de forma irracional, cabe sempre ao Estado a tarefa de limpar a sujeira e restabelecer a saúde do sistema. O que impressiona é o fato do monetarismo de Friedman haver se mantido hegemônico a despeito do desempenho macroeconômico dos EUA nas últimas décadas.

Segundo Krugman, entre 1947 e 1976, quando as idéias de Friedman ainda eram ignoradas, a renda real média nos EUA mais do que dobrou. De 1976 a 2005, período em que o neoliberalismo se consolidou, a renda real média aumentou apenas 23%. Krugman, é claro, assinala que não se pode culpar integralmente as idéias de Friedman pelos maus resultados. “Mas, ainda assim”, diz ele,“dada a idéia bastante comum de que a virada para as políticas de livre mercado fez grandes coisas pela economia americana e pelo padrão de vida dos americanos normais, é incrível quão pouca base pode ser encontrada a favor dessa concepção nos dados”.


nov 20

Zé Batista era um centro-avante guerreiro.
Tinha uma fé inabalável de que seus gols
não vinham de seus pés.
Mas dos desígnios lá de cima.
Entrava em campo, três vezes sinal da cruz.
Perdia gols, benzia-se, beijava medalhinha.
Fazia gols, apontava para os céus de olhos fechados,
ajoelhava e  levantava a camisa escrita: Não fui eu, foi Ele.
Uma tarde, final do campeonato,
o jogo matava a torcida num zero a zero eletrizante.
Foram nove gols absurdamente perdidos por Zé Batista.
Bolas na trave, chutes a gol aberto, pênalti para fora,
goleiro defendendo com a ponta dos dedos, bico da chuteira,
sustos à queima roupa.
Zé Batista corria de um lado para o outro na área,
estonteando os zagueiros, procurando a melhor colocação.
Enquanto isso, rezava ofegante e baixinho.
Nos seus lábios, Pai Nossos, Aves Marias, Salves Rainhas.
É agora, meu deus, é agora, meus santos,
tem que ser agora, minhas nossas.
Um minuto de desconto. Bola levantada na área,
Zé Batista sobe mais que o líbero, a bola bate na sua nuca,
goleiro vencido, toca na trave, o zagueiro tira em cima da linha,
volta na canela do Zé, que chuta por instinto, meio torto,
meio mascado, o goleiro escorrega e sai catando a maldita,
que entra no gol como uma galinha tonta e fugidia.
Zé Batista em transe salta mais que o próprio corpo,
braços e pernas no ar fazendo um xis.
E desce já de joelhos, olhos cerrados,
dedos apontando para os céus pelo milagre alcançado.
E solta a voz:
- PUTA QUE O PARIU, SENHOR!


nov 20

Em direção à Serra da Bocaina, paramos num posto de gasolina para esticar as pernas, fazer xixi e reabastecer. O frentista vem ter conosco:

“Boa noite.”
“Boa noite. Completa, por favor.”
“Pra já.”
“Vem cá, sabe dizer quanto tempo falta até a entrada do Parque da Bocaina?”
“Rapaz, olha… Acho que meia hora, uma hora, uma hora e meia…”


nov 19

Não sou economista. Nunca li Friedman; de Keynes, conheço poucos capítulos de seu clássico A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Feita a ressalva, eu gostaria de dar uns palpites, na esteira do artigo de Krugman.

Se, como Keynes, você leva em consideração que o homem é um animal também irracional, e se sabe que o mercado, afinal, é feito por homens, então tem bons motivos para pensar no Estado como uma espécie de superego coletivo, que vigia as paixões destrutivas, entre elas a ganância. Se, como Friedman, você crê no predomínio individual da razão, então o Estado torna-se um intruso desnecessário: deixem os homens negociarem por conta própria que, ao fim e ao cabo, tudo se acerta.

Friedman, como sabemos, venceu.


nov 18

Resultados da terça anterior.

1.  “O Brasil não é um país sério”.

Atribuída a DeGaulle por ocasião da Guerra da Lagosta no nosso litoral, na verdade, foi dita por Alves de Souza, embaixador brasileiro em Paris.

2.  “Não preciso do voto dos marmiteiros.”

Atribuída ao Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato a presidente pela UDN em 1945, na verdade é fruto de um boato espalhado pelos getulistas. Boato tão bem plantado, que o udenista perdeu a eleição, com fama de elitista.

3.   “Não quero o voto da malta de desocupados”.

Esta é a verdadeira frase que foi dita por Eduardo Gomes. Como se vê, pouco se difere da frase do boato: a fama de elitista tinha suas razões de ser. Aliás, a UDN nunca soube lidar bem com eleições. Sempre tentando dar golpes na democracia (contra Getúlio, contra Juscelino, contra Jango), só conseguiu eleger um Presidente da República: o excêntrico, desvairado e golpista fracassado Jânio Quadros.

Próximos desafios.

1. “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.”

2. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”.

3. “Quem não gosta de estar consigo mesmo, em geral, está certo.”


nov 18

Krugman assinala que, nos últimos dois séculos, o “pensamento econômico tem sido dominado pelo conceito do homo economicus”, ou seja, a idéia de que o comportamento do homem é pautado pela busca racional de maximizar interesses e minimizar riscos. E completa, na seqüência: tal idéia é obviamente uma abstração, e “ninguém, nem mesmo os economistas vencedores do Nobel, realmente toma decisões assim”. (De fato, não há como ignorar Freud.)

Keynes não desconstruiu o homo economicus. Seu brilhantismo, diz Krugman, consistiu em formular uma teoria que levasse em conta explicações psicológicas plausíveis sobre a irracionalidade de decisões comerciais ou de consumo. O brilhantismo de Friedman, por sua vez, esteve justamente em reabilitar o papel do homo economicus, pois “as teorias econômicas não deveriam ser julgadas por seu realismo psicológico, mas pela capacidade de prever comportamentos”.


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