out 31

por Gibrael Gibran

Salamaleque.

Como a ordem natural das coisas
não fazia o menor sentido,
resolvi procurá-lo de trás pra frente.
E foi assim que me iniciei na fascinante
arte de inventar palíndromos.
O primeiro deles, é claro, tinha que reverenciar
meus antepassados árabes
que, afinal, sempre souberam que a vida deve
se escrever e ler (e viver) ao contrário:

A VIDA DE ALÁ É DÁDIVA.

Enviado por um maestro das letras,  que se enfiou embaixo de uma burca para ser lido, sem ser visto. Mas, dizem, está doido para ser descerrado.
Quem se habilita?


out 31

Assassinamos-nos uns aos outros metodicamente, e quando a morte surge ceifando um ou dois ou três ou até mais, achamos natural. Ninguém irrompe em choro no enterro, ou tomba inconsolável à noite. Somos uma família normal, e vestimos apenas preto.


out 30

Bunker, boate moderninha em Copacabana, Rio de Janeiro. O garotão – uma lenda da galhofa noturna carioca – se enrosca com a menina. Vão para a cama (havia uma dentro da Bunker). Se pegam, se entrelaçam, se tocam, se provocam até que… Ele desmaia. Muito uísque.

“Mas que porra é esta!?”, grita o segurança, dando um tapa na cabeça do rapaz.

(Ele havia dormido com os documentos para fora da calça.)

“Olhe, vou te falar… Não fui eu que tirei, não sou eu que vou guardar!”.

Toma um segundo tapa do segurança e aí sim, bem acordado, recolhe os pertences esparramados.


out 30

Maria Cecília desafiava o tempo.
Venceu estrias e celulites, pés de galinha e pelancas.
Silicones, lazer, cremes para isso, cremes para aquilo.
Botox, massagens, hidroginásticas. Pílulas e mais pílulas.
Rejuvenescimento celular.
Medicina ortomolecular. Recomposições hormonais.
Ginástica de todas as modalidades.
Até pompoarismo.
Reconstituiu hímem, aparou os grandes lábios, implantou pelos recônditos.
Esticou tudo que podia.
Só não fez plástica na saudade.
Foi-se de tristeza.

Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV - Publit - 2007


out 29

Almoçamos juntos às sextas-feiras por costume herdado – o cimento, a tradição coesiva da família, e hoje veja o que se dá. Confraternizamos, a bebida é de boa qualidade, acordamos de melhor espírito no dia seguinte. Primos, irmãos, genros, noras, sobrinhos, sogras, cunhados, tios, avós, bisavós, sobreviventes, todos, todos, todos se reparam e se espelham, se glorificam e se jactam, se fortalecem em alianças e se traem em cochichos, e se perdem nas miudezas de pequenas inimizades. E isso acontece sempre às sextas-feiras, não abrimos exceção.


out 28

Resultados da última terça:

1. “Mais vale um filé no prato do que um boi no açougue.” STANISLAW PONTE PRETA

2. “No mundo existem aqueles que choram e os que vendem lenços. Eu vendo lenços.” NIZAN GUANAES

3. “O preço da justiça está no canhoto do meu talão de cheque.” SERGIO NAYA

Stanislaw sempre foi um filé de inteligência. Nizan, pelos últimos acontecimentos, deve estar mais rico. E até comprando alguns lencinhos. E Sergio Naya disse o que milhares de caras fazem, mas não dizem.

Agora as próximas:

1. “Estudar é bobagem.”

2. “Posso prometer que, para trazer o Guggenheim para o Rio, seremos ousados além do que recomenda a prudência”.

3. “A imprensa mente, deturpa os fatos e agride o vernáculo”.


out 28

O bar estava em polvorosa.

- Como é que ela vai aparecer agora?
- O anúncio da Playboy mostra uma gilete, uma tesoura e um tesourão de jardineiro.
- Tenho uma tese: sobrancelhas grossas em cima, fartura lá embaixo.
- Outro dia minha namorada apareceu com um filete.
Que é isso? Um índio moicano entre as pernas?
- É mais higiênico.
- Que nada. As mulheres estão dispensando a proteção natural.
-… e divina!
- É o design mais perfeito já criado.
As curvas do violão, centralizadas por um triângulo bem contornado e o toque final: o umbigo eqüidistante. Ponto.
- Hoje é uma agressão à arte da natureza.
- É verdade. Já vi borboletas, corações, primeiras letras, interrogações, i ching, bigodinhos de Hitler, joaninhas, morceguinho do batman…
-… estrela solitária do Botafogo.
- Isso pode!
- O que há com você? Está tão calado? Cara amarrada?
Gosta de Barbie, é? Fetichista? Pedófilo?
- Eu só gosto de ver tudo raspadinho, pétalas sobre pétalas.
Mulher para mim tem que andar com camisinha e uma gilete na bolsa. Se eu encontrar o menor fiapo, não rola.
- Entendi tudo. Você é careca. Antes de entrar na faculdade já era careca. Tem inveja de cabelo.

E fechou o tempo.
Até a polícia foi chamada para conter os ânimos.
Na patrulhinha, uma sargenta. Bonitinha como ela só.
Cabelos vastos presos no boné, corpinho de violão.
Calça justa, insinuando o triângulo provocante e insidioso.
E o pior: sobrancelhas grossas.
Um deles não se agüentou: cochichou alguma coisa no ouvido dela.
Foi preso por desacato.


out 27

Bela disputa de votos no Rio.Um ganhou eleitoralmente.Outro ganhou politicamente. Fotochart. Democracia é assim.  Tem suas justiças, tem suas injustiças, tem suas sujeiras, tem suas legitimidades, tem suas manobras, tem seus exercícios de retórica, tem suas baixarias, tem suas comemorações, tem seus chororôs.  O que me entristece é a abstenção, depois de tantos anos de gente lutando, sendo presa e torturada pelo direito a eleições. O índice de não comparecimento às urnas na Zona Sul foi altíssimo, escandaloso. O que desanima é o fato de cariocas espertos, supostamente conscientes e letrados aproveitarem o feriadão, e preferirem Búzios, Angra, Araras, Itaipavas a demonstrar um pouco de civilidade e cidadania. Aliás, estou querendo demais de quem fecha cruzamento, anda pelo acostamento e pára com as quatro rodas na calçada. Atrapalhando o pedestre, impedindo a passagem de um carrinho de bebê e, certamente, encobrindo um cocozão de cachorro.

Em tempo: sou carioca da Zona Sul, moro em São Paulo, trabalho em São Paulo, pago Imposto em São Paulo e,  sem sacanagem, gosto de São Paulo.  Fui ao Rio votar  no primeiro turno e não pude ir votar no segundo.  Apesar da engrossar a vergonhosa estatística, não me considero um ausente das dores e delícias da minha cidade natal.

 


out 27

Se nos atacam, se nos tentam asfixiar, levantamos enérgicos e saímos à rua discursando. Os mais novos vão na frente empunhando estandartes. Geralmente, fazemo-nos ouvir (embora outrora gozássemos de prestígio maior). Caso precisemos de diplomacia, recorremos aos avós. Nunca nos decepcionaram e não haveria de ser agora, no fim da vida, um descabido desses acontecer.


out 24

Meu computador morreu.
Fulminado por um pico de luz que nem o estabilizador deu jeito.
Pronto. Perdi as estribeiras. Perdi o rebolado. Perdi a memória.
Perdi meu romance no meio. Perdi minhas palestras. Perdi meu projetos.
Perdi minhas contabilidades. Perdi meus roteiros. Perdi minhas referências.
Perdi meus contos. Perdi meus textos.
Perdi os textos das minhas pessoas queridas.
Perdi minhas fotos. Perdi a inocência de que isso não aconteceria comigo.
Só não perdi o telefone do meu mágico de plantão. Estava escrito num caderninho.
E aí, quem perdeu foi esse texto que estou escrevendo agora.
Perdeu a razão de ser.
Tudo foi recuperado, não me pergunte como.
E besta que não sou mais: com back up de tudo, até em imã de geladeira.
Assim desenterrei meu computador das lavas do inferno, para onde desejei que fosse a dependência absoluta e maluca da tecnologia.
Viva o meu renato computador.
Mas antes de tudo, viva meu caderninho de telefone.

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out 23

No metrô, o senhorzinho de ombros curvados e cabelos brancos discursa, exaltado mas elegantemente, sobre Deus e a necessidade da prática religiosa. A oração. A fé. Os sagrados mandamentos. Adão, Eva e o fruto proibido. A vida eterna. A danação eterna. A morte, a finitude da existência.

“Aliás”, diz ele, “sou contra esse negócio de cremação”.

“Contra? Mas por que?”, pergunta uma senhora, que ouvia atentamente.

“Porque acho uma covardia com as minhocas, que estão lá embaixo passando por dificuldades”


out 22

Somos uma família normal. Exibimos as recordações amareladas nas prateleiras, os diplomas, as fotos, o mofo. Os pequenos logo são ensinados – com todos é assim – a viver de acordo com o que lhes assaltar o pensamento, não importando os achaques que nos tentam impor; e eles conseguem sempre, o peso abafado da rotina. Já terão dito: somos criados para nos tornarmos exatamente aquilo que foram os que vieram antes de nós.

Somos felizes, alguns ao menos, e moramos com conforto.


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