set 30

Mais uma rodada do Phrase Quiz. Dessa vez foi moleza.

1. “O uísque é o cachorro engarrafado.” VINICIUS DE MORAES
2. “Senhores, na maioria das vezes, um charuto é somente um charuto.” FREUD
3. “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal.” TOM JOBIM.

Agora, as próximas:

1. “Cheguei à conclusão, talvez um pouquinho tarde, que os discursos devem ser curtos.”
2. “A seleção brasileira é uma seleção sem vícios: não fuma, não bebe, não joga.”
3. “Quem olha  para trás não olha para frente.”

Divirtam-se.


set 30

Hoje em dia é improvável que você encontre um jornalista reclamando para si A Objetividade Absoluta. Mas é incrível a frequência com que ouvimos um ou outro não apenas se dizendo francamente imparcial, mas afirmando que está “trazendo somente os fatos” – como se a notícia fosse “observada” e posteriormente “relatada”, e não “construída”, como se houvesse total separação ou independência entre sujeito e objeto. Curioso, isso. Recusam o verniz do vocabulário platônico, mas conservam seus pressupostos e modos de ação.


set 29

Por coincidência, a revista britânica The Economist e a brasileira Veja saíram com capas semelhantes nas suas edições sobre a recente crise econômica nos EUA. Ambas se valeram da famosa imagem do Tio Sam apontando o dedo enfaticamente para nós. Mas a semelhança acaba aí.

Na capa da Economist, lê-se “I want your money”.

Na de Veja, “Eu salvei você”.

[Na sequência, inicio uma série de posts sobre jornalismo e ideologia]


set 29

Mrs Palin se credencia como excelente negociadora de política externa, pelo simples fato de o Alasca encostar geograficamente com as Rússia. Acreditem, foi o que ela disse. Obama nem quis comentar a besteira. Só respondeu que “o povo americano saberá julgar isso”. Menos, Obama, menos. O povo americano pode achar o argumento obviamente convincente.


set 25

Aflito com a sequência de mortes que assolava o mosteiro no qual se encontrava, o jovem Adso vai ter com seu mestre, Guilherme de Baskerville [em O Nome da Rosa, de Umberto Eco]:

“O glutão tornou-se um puro”, disse-me Guilherme.
“Mas esta é a pureza?”, perguntei-lhe horrorizado.
“Haverá também as de uma outra espécie”, disse Guilherme, “mas, seja qual for, sempre me dá medo”.
“O que vos aterroriza mais na pureza?”, perguntei.
“A pressa”, respondeu Guilherme.


set 24

Como se sabe, Mestre Yoda é um
 anão enrugado, careca e verde que, não obstante as óbvias limitações
 físicas e a mania de organizar as frases na ordem 
inversa, exerce enorme poder sobre aqueles que o rodeiam. Por esta razão, que não é pouca, sempre observei com 
atenção seus ensinamentos, quando acontecia de me deparar com um. Sei
 que as falas de Yoda não “são” dele, mas do roteirista, o que aliás é uma das muitas injustiças deste mundo. Mas 
há uma fala, um ensinamento que, tenho certeza, não é de autoria do roteirista. Como isso
 foi acontecer, não importa. O que importa é que, em momento iluminado, Mestre Yoda disse:
 “Try not. Do. Or do not. There is no try”.


set 23

Repetindo: diz-se que frasista é o sujeito dado a expressões pomposas e vazias. Discordo. Nem toda frase feita é uma bobagem. Há boas, bem construídas, inteligentes, bem humoradas. São consagradas em pára-choques e banheiros de botecos. Bobagem é o uso excessivo que se faz delas como clichês. Como sempre, toda terça vamos lançar três frases, idiotas ou inteligentes, não importa. E você vai intuir, sugerir, revelar os autores, ou chutar (bem) quem seria a dono da dita cuja.  Terça seguinte sai o resultado da terça anterior. E se quiser mandar frases para este quiz, não se avexe. Como diria Costa e Silva, diante de uma barcaça abarrotada de víveres,  zarpando cambaia de um porto: “é melhor soçobrar, do que fafaltar à tropa.”

Resultados (certos ou bem chutados) da terça anterior:

1.    “Se um dia a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela”. PAULO CESAR PEREIO.
2.   “Todo mundo tem cliente. Só traficante e analista de sistema tem usuário”. BILL GATES
3.   “Inteligência é difícil de melhorar. No corpo, uma plástica resolve.”MARISA ORTH

Agora, as próximas:

1.   ”O uísque é o cachorro engarrafado.”
2. “Senhores, na maioria das vezes, um charuto é somente um charuto.”
3. “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal.”


set 22

Em 1556, havia nas praias nordestinas praga pior que argentino: índios caetés. Foi o que se deu conta o novo e ilustre náufrago Bispo Sardinha, ao despertar espetado por ameaças alienígenas. Acuado, o Bispo logo pegou de escudo as palavras do senhor. De um senhor cozido. Pois, contrariando o próprio batismo, Sardinha era incondicional ao prato que leva tudo, menos peixe. Por curiosidade, foi arrastado à aldeia e logo teve início a festa dos preparativos. Sardinha, o cacique do caldeirão, aprovava os exóticos ingredientes da nova terra. Mandioca, pupunha, jirimum e banana-da-terra casaram bem com a tradição. Jaca, sirigüela e até carne de jararaca acabariam por desandar a receita. Depois de horas, os índios cresceram impacientes, mas Sardinha bateu o pé de que ainda não estava no ponto. Para provar seu argumento, colocou um pouco do caldo na palma da mão. Os índios bicaram da mão do religioso e descobriram o sabor que faltava. Quando o Sardinha bobeou, foi empurrado para a panela de sopetão. E a taba inteira deitou o beiço maravilhada. Houve até briga para chupar a carninha macia grudada na cruz do terço.

Enviado por João Vereza

 


set 22

O filósofo americano Donald Davidson tem uma maneira peculiar de pensar a metáfora. Metáforas, diz ele, não possuem sentidos diferentes dos seus sentidos literais, não têm um lugar fixo no jogo de linguagem corrente e, por esta razão, não podem ser nem refutadas nem confirmadas. São candidatas a valor de verdade que, se forem aceitas, vão aos poucos adquirindo um uso habitual até conquistarem um lugar no jogo de linguagem estabelecido, quando então perdem seu caráter metafórico e se literalizam. Metáforas são veículos de perspectivas inéditas de pensamento, instrumentos para a introdução de idéias novas – idéias que, se bem sucedidas, acabam por estabelecer os parâmetros de julgamento pelos quais serão posteriormente avaliadas.


set 20

Foi-se embora o redator mais terno e sensível da história da propaganda em todos os tempos.
Paulinho Costa.

Quem o conheceu sabe que não estou exagerando. Quem não o conheceu, lamento por ter perdido a chance. Quem nem se lembrava mais dele, perdoa-se: a propaganda tem mesmo uma memória afetiva muito curta.

 

 


set 20

Em menos de dois meses,  por este blog já desfilaram histórias, metáforas, manifestos, opiniões, desabafos, alfinetadas, esperanças e temores.
A lembrar: a torcida por Obama, os horrores de Palin, o pittbull do Alasca, os perigos do McCain, a tentativa otimista de compreender a China, as filigranas da democracia, a injustiça da justiça brasileira, as gafes dos nossos jornalistas da TV, os micos dos perebolímpicos, a malandragem estilo ACM etc e tais, tais, tais.

E do Chavez?

Ninguém tem nada a dizer, não?


set 19

 

Curioso fotógrafo em andança mato adentro. 
De um leito de rio ralo, avistou o casebre no alto de uma colina.
Tinham dito que ali morava um artista.  Aproximou-se com cerimônia, batendo palmas, tirando o chapéu. Apareceu uma velhinha. Cercada de umas oito crianças, de diversos tamanhos, alturas e barrigas.
- Tarde.
- Tarde.
- É aqui que mora um artista?
- É eu, sim senhor…

Beirava os cem anos a velha. Coisa comum na região. Rosto rachado,  mãos craquelentas, dente nenhum.
- Ah, é a senhora?
- Qué vê as obra, moço?
- Sim… gostaria…

A velha espantou as crianças como se enxota galinha no terreiro.
Entraram só os dois. Trancou porta, janelas, acendeu lampião e abriu um armário.
- Que é isso, dona??
- Caraios, moço. Tem de jacarandá, pau brasil, galho de goiabeira, toco de lenha. Eu faço com esse canivetinho aqui.

Eram esculturas dos mais variadas dimensões. Finas, grossas, compridas,curtas, bojudas. Todas eretas, anatomicamente perfeitas,com detalhes de veias que pareciam pulsar.
Entre perplexo e deslumbrado, tentou puxar prosa com naturalidade.
- Há muito tempo a senhora faz isso?
- Pra mais de trinta anos, toda noite.
- Toda noite?

E a velhinha segredou:
- É quando minhas criança vão drurmi.

 


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