ago 30

Ela é contra o aborto. A favor da pena de morte. Prega que cada um tenha uma arma na cintura. Abomina o casamento gay. Adora caçar veados. (Alces no Alaska, em particular. Ah, bom…). Quer continuar a política de Bush. É cristã ferrenha. Tem orgulho que seu filho esteja embarcando para o Iraque. Não considera ursos polares animais em extinção. É tida pelos ultradireitistas americanos como a maior aposta política do Estados Unidos. Tem 44 anos e é vice de um candidato de 72, com a saúde meio mais ou menos. Pronto. Conservadores tupiniquins, órfãos de lideranças reacionárias, agora vocês já têm para quem torcer.

 


ago 29

“Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos – numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.” 

[Nietzsche, Verdade e mentira em um sentido extra-moral]


ago 29

Tô de saco cheio dos modismos idiotas dos jornalistas esportivos que frequentam a nossa TV. Querem ver alguns? Não existe mais “depois”, “a seguir”, “após”, não!! Só “na sequência”!Outra: ninguém decide mais nada, apenas “define”. “Vamos à definição no tiebreak…”. Replay, repetição do lance, repeteco? Não, nada disso! Imagens recuperadas. Não é muito mais bonito?
Na sequência eu falo mais.

Eviado por Paulo Éboli.

 


ago 29

Reunião com conselho da Xerox, tradicionalmente conservador.
Os executivos da época costumavam aprovar um budget inicial e iam cortando durante o ano,  pois aquele que reduzisse custos, tinham seus bônus anuais calibrados. Falta  de investimento em marca e redução de leads de venda até poderiam trazer um resultado anual, mas como perpetuidade e posicionamento de uma marca associada à inovação e tecnologia….significava um tiro no pé.
Na época, só falavam da Parmalat com seus bichinhos que viraram febre e o Palmeiras ganhando tudo – a multinacional italiana formou um senhor time.
Começa a apresentação plano de mídia e investimentos para o ano, que já era um décimo se comparado a Parmalat, sendo que pelo histórico seria tesourado durante o ano.
Um diretor da empresa pergunta com uma senhora propriedade :
- Por que a Xerox não patrocina um clube de futebol?
E aí entra Lula Vieria de bate pronto.
- Com o dinheiro que vocês têm…podem patrocinar o São Cristovão.

 Enviado por Marcelo Lobianco.

 


ago 28

Tudo pronto para filmagem.
O diretor exigente não admitia outro tom de ocre na parede da casa cenográfica, se não fosse o que estava na sua cabeça.
- Não é. Pinta de novo.
A equipe se desesperava. Alguém pediu uma referência, pelamordedeus.
- O muro em frente ao estúdio tem o tom que eu quero.
Todos atravessaram a rua. Fotografaram o muro. E pintaram a parede igual.
- Não está igual ao muro. Pinta de novo.
Desespero. Os atores caíram no sono, o maquiador chorou.
A produção tentou pela terceira vez.
- Não está igual ao muro. Pinta de novo.
Filmagem suspensa. Desastre.
Dia seguinte, o diretor chegou cedo.
- Finalmente. Pintaram no tom que eu queria. Olha só, igual ao muro, não disse?? Seus babacas!!!
Paz no set.
Um produtor cochichou com cenógrafo:
- Como é que você conseguiu?
- Passamos a noite lá fora. Pintando o muro.


ago 28

Penitenciária Estadual de Concórdia (EUA), março de 1961. O PhD em psicologia e professor da pós-graduação em Harvard Timothy Leary começa a implementar um projeto experimental de recuperação de presidiários através da administração regular de doses de LSD. O diálogo que se segue aconteceu durante a primeira sessão do tratamento. Todos na cela, inclusive Leary, haviam ingerido LSD.

– E aí, John?
– Estou bem.
– E você, doutor Leary?
– Estou péssimo.
– Qual é o seu problema, doutor?
– Eu estou com medo de você.
– Bom, é engraçado, doutor, porque também estou com medo de você.
– Porque você está com medo de mim?
– Porque você é um criminoso. E você, por que está com medo de mim?
– Estou com medo porque você é um cientista louco da porra!

[extraído de "Flashbacks", autobiografia de Timothy Leary]

 


ago 27

Não perco um artigo do Ali Kamel no jornal O Globo. Ontem, por exemplo, Kamel escreveu sobre marketing político e, lá pelas tantas, desandou a falar sobre democracia: “… a democracia nunca falha, e os erros deixam marcas e rastros”. Em seguida, ele próprio pondera que “essa frase pode parecer otimista, e [que] haverá sempre quem diga que é justamente a democracia que permite que fenômenos como esses aconteçam” (refere-se à picaretagem de políticos). Ora, se a democracia nunca falha, então como explicar a suspensão do Estado de Direito na prisão de Guantánamo? Como explicar que a democracia mais consolidada do mundo atue no sentido de revogar um dos pilares mais fundamentais da própria democracia? Kamel poderia até argumentar que o problema teria sido uma má escolha por parte da elite política, e não uma falha da democracia enquanto sistema. Mas aí teríamos que lhe lembrar de que não existe algo como uma “democracia” que constrói a si própria, e que ela será sempre aquilo que os homens fazem dela. Os homens, infelizmente, falham. E muito.


ago 27

Engarrafamento de estimação na Faria Lima. Os carros andam a pé. Solidários, pacientes, resignados. De repente, uma sirene ao longe. Todos se agitam. Uns buzinam com educação, um leve toque. A sirene se aproxima. Outros batem com as mãos e os nervos na porta do carro. A sirene se aproxima mais ainda. Todos se espremem, como uma multidão no elevador. Sempre cabe mais um. A sirene está mais perto. Luzes aflitas no retrovisor. Ambulância? Mais um motoboy estendido? Carro de bombeiros? Um prédio em chamas? A sirene agora é um gemido intermitente, doído. Passa por mim a viatura urgente, tirando fino de tudo e de todos. E vai. Costurando o trânsito, cantando pneu. Polícia? Não. Carro fúnebre. Pra que a pressa?

 


ago 26

“A mãe do Phelps não deve ter mais onde enfiar tanto ramalhete”. Por mais incrível que possa parecer, esta frase foi dita – a sério – por um locutor esportivo da TV brasileira na entrega de medalhas – e ramalhetes - do sétimo – ou oitavo, ou sexto – ouro do nadador Michael Phelps. Outra pérola: quando a atleta da Rússia abraçou, no pódio, a atleta da Geórgia, produzindo mais uma imagem marcante dos jogos, o áudio também marcou. O locutor mandou essa: “Que atitude bonita. E olha que (a prova) é de tiro, hein?” O que ele esperava, um tiroteio na entrega de medalhas entre Rússia e Geórgia? A que ficasse viva ganhava o ouro?Mais uma boa frase, e que mostra o estado de espírito brasileiro depois de vários fracassos de nossos atletas : “Amanhã o time brasileiro feminino de futebol vai para a disputa do prata”. Juro que é verdade. Que tal? Não sei o que vai fazer mais falta nas manhãs de todo dia, se os atletas dos jogos ou os artistas da palavra.” 

Enviado por Gustavo Bastos


ago 25

No inverno, os pés de tangerina espalhados pelas ruas de Roma, que são muitos e vistosos, estão carregados de frutos. Mas não vá você tentar escalar a pequena árvore, ou chacoalhá-la com força, ou se valer de um objeto comprido qualquer para fazer um punhado de frutas vir ao chão, achando que com isso terá uma sobremesa suculenta ou lanche grátis. São amargas.


ago 23

“Achei particularmente legal aquela dupla de vôlei de brasileiros que se naturalizou georgiana e, naturalmente, se rebatizou como Geor e Gia. O que me faz pensar que além de jogadores de vôlei, eles sejam também estudantes de comunicação da Suam.  Geor e Gia, veja você. Imagine se nas próximas Olimpíadas eles resolvem se tornar cidadãos de Cuba.” 

Do amigo muito especial Carlos Pedrosa, saborosa e inesgotável fonte de inspiração, olímpico e insone observador de tudo nesta vida. 


ago 22

Hora do adeus ao marido, Rita fez como manda o figurino.
Assistiu ao caixão baixar sepultura de mãos dadas com o filho.
Lágrimas, discretas atrás dos óculos pretos,
estancaram-se. Delicadas presenças de um lencinho bordado.
Até que viu um coveiro chorando.
Falou baixinho para o filho:
- Beto, olha lá como seu pai era querido.
E se debulhou em prantos sinceros, explosivos, restauradores.
Saiu carregada, esperneando de tanto chorar e gritar o nome do defunto. Perdeu  brincos e um sapato.
Já no estacionamento do cemitério, Beto deixou a mãe, aos soluços, nos braços de um tio.
Só um instantinho.
Foi acertar a gorjetinha que tinha combinado com o coveiro.

Do livro 30″- Contos Expressos
JGV Publit 2007


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