mai 6

 

Dica.

Para quem tem mais de 30 segundos.

Dois corpos, um desejo,

uma paixão, surpresa.

E medo.

 

 

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nov 20

Zé Batista era um centro-avante guerreiro.
Tinha uma fé inabalável de que seus gols
não vinham de seus pés.
Mas dos desígnios lá de cima.
Entrava em campo, três vezes sinal da cruz.
Perdia gols, benzia-se, beijava medalhinha.
Fazia gols, apontava para os céus de olhos fechados,
ajoelhava e  levantava a camisa escrita: Não fui eu, foi Ele.
Uma tarde, final do campeonato,
o jogo matava a torcida num zero a zero eletrizante.
Foram nove gols absurdamente perdidos por Zé Batista.
Bolas na trave, chutes a gol aberto, pênalti para fora,
goleiro defendendo com a ponta dos dedos, bico da chuteira,
sustos à queima roupa.
Zé Batista corria de um lado para o outro na área,
estonteando os zagueiros, procurando a melhor colocação.
Enquanto isso, rezava ofegante e baixinho.
Nos seus lábios, Pai Nossos, Aves Marias, Salves Rainhas.
É agora, meu deus, é agora, meus santos,
tem que ser agora, minhas nossas.
Um minuto de desconto. Bola levantada na área,
Zé Batista sobe mais que o líbero, a bola bate na sua nuca,
goleiro vencido, toca na trave, o zagueiro tira em cima da linha,
volta na canela do Zé, que chuta por instinto, meio torto,
meio mascado, o goleiro escorrega e sai catando a maldita,
que entra no gol como uma galinha tonta e fugidia.
Zé Batista em transe salta mais que o próprio corpo,
braços e pernas no ar fazendo um xis.
E desce já de joelhos, olhos cerrados,
dedos apontando para os céus pelo milagre alcançado.
E solta a voz:
- PUTA QUE O PARIU, SENHOR!


out 28

O bar estava em polvorosa.

- Como é que ela vai aparecer agora?
- O anúncio da Playboy mostra uma gilete, uma tesoura e um tesourão de jardineiro.
- Tenho uma tese: sobrancelhas grossas em cima, fartura lá embaixo.
- Outro dia minha namorada apareceu com um filete.
Que é isso? Um índio moicano entre as pernas?
- É mais higiênico.
- Que nada. As mulheres estão dispensando a proteção natural.
-… e divina!
- É o design mais perfeito já criado.
As curvas do violão, centralizadas por um triângulo bem contornado e o toque final: o umbigo eqüidistante. Ponto.
- Hoje é uma agressão à arte da natureza.
- É verdade. Já vi borboletas, corações, primeiras letras, interrogações, i ching, bigodinhos de Hitler, joaninhas, morceguinho do batman…
-… estrela solitária do Botafogo.
- Isso pode!
- O que há com você? Está tão calado? Cara amarrada?
Gosta de Barbie, é? Fetichista? Pedófilo?
- Eu só gosto de ver tudo raspadinho, pétalas sobre pétalas.
Mulher para mim tem que andar com camisinha e uma gilete na bolsa. Se eu encontrar o menor fiapo, não rola.
- Entendi tudo. Você é careca. Antes de entrar na faculdade já era careca. Tem inveja de cabelo.

E fechou o tempo.
Até a polícia foi chamada para conter os ânimos.
Na patrulhinha, uma sargenta. Bonitinha como ela só.
Cabelos vastos presos no boné, corpinho de violão.
Calça justa, insinuando o triângulo provocante e insidioso.
E o pior: sobrancelhas grossas.
Um deles não se agüentou: cochichou alguma coisa no ouvido dela.
Foi preso por desacato.


out 17

Na hora do jantar, ela veio com essa conversa:
- Você ouviu, Jurandir, o que a vizinha Arlete fez com o marido?
- Que conversa é essa, Maria Elisa?  Fofocando de novo?
- Ela descobriu que o sem vergonha estava se engraçando com a funcionária. Esperou ele dormir, ferveu a chaleira e despejou água pelando no ouvido do safado.
- História, Maria Elisa. Quem devia levar água fervendo na língua é mulher intriguenta, que só fala da vida dos outros. E quer saber: não agüento mais você, velha mexeriqueira.  Todo dia uma bisbilhotice!

E levantou da mesa direto para cama. Ao longe, ouviu a mulher tagarelar ao telefone com as amigas. Falou da vizinha, falou da cunhada, falou da manicure, falou, falou, falou até cair no sono.
No sofá, com o fone fora do gancho.
Acordado pelo silêncio, Jurandir levantou da cama.
Nem mexeu na mulher que roncava de roupa e tudo na sala, com a boca aberta e a língua cansada para fora.
Foi até a cozinha, sem chinelo. Pé ante pé.
Aproximou-se do fogão.
Tremeu-se todo quando viu a chaleira na trempe.
E desligou a torneirinha do bujão de gás.


set 25

Aflito com a sequência de mortes que assolava o mosteiro no qual se encontrava, o jovem Adso vai ter com seu mestre, Guilherme de Baskerville [em O Nome da Rosa, de Umberto Eco]:

“O glutão tornou-se um puro”, disse-me Guilherme.
“Mas esta é a pureza?”, perguntei-lhe horrorizado.
“Haverá também as de uma outra espécie”, disse Guilherme, “mas, seja qual for, sempre me dá medo”.
“O que vos aterroriza mais na pureza?”, perguntei.
“A pressa”, respondeu Guilherme.


set 19

 

Curioso fotógrafo em andança mato adentro. 
De um leito de rio ralo, avistou o casebre no alto de uma colina.
Tinham dito que ali morava um artista.  Aproximou-se com cerimônia, batendo palmas, tirando o chapéu. Apareceu uma velhinha. Cercada de umas oito crianças, de diversos tamanhos, alturas e barrigas.
- Tarde.
- Tarde.
- É aqui que mora um artista?
- É eu, sim senhor…

Beirava os cem anos a velha. Coisa comum na região. Rosto rachado,  mãos craquelentas, dente nenhum.
- Ah, é a senhora?
- Qué vê as obra, moço?
- Sim… gostaria…

A velha espantou as crianças como se enxota galinha no terreiro.
Entraram só os dois. Trancou porta, janelas, acendeu lampião e abriu um armário.
- Que é isso, dona??
- Caraios, moço. Tem de jacarandá, pau brasil, galho de goiabeira, toco de lenha. Eu faço com esse canivetinho aqui.

Eram esculturas dos mais variadas dimensões. Finas, grossas, compridas,curtas, bojudas. Todas eretas, anatomicamente perfeitas,com detalhes de veias que pareciam pulsar.
Entre perplexo e deslumbrado, tentou puxar prosa com naturalidade.
- Há muito tempo a senhora faz isso?
- Pra mais de trinta anos, toda noite.
- Toda noite?

E a velhinha segredou:
- É quando minhas criança vão drurmi.

 


ago 19

Claudete era doida pra casar.

Convenceu  Carlos Maurício, o eterno noivo, a uma semana em Casablanca. Romance em estado puro. Inspiração entre véus, danças sensuais e narguilés. Quem sabe voltariam casados? Quem sabe? Primeiro dia, foram cercados por mercadores. Ofereceram 400 camelos por Claudete. Carlos Maurício arregalou os olhos, sorriu no canto da boca e, arriscando um francês horroroso, perguntou baixinho quanto era a oferta em euros. O quê?!?! Claudete saiu correndo pelas ruelas.Tropeçando em cestas e najas amestradas. Passou no hotel,  foi para o aeroporto e sumiu. Deixando para trás esperanças e alguns marroquinos furiosos. Foi difícil para Carlos Maurício explicar que a mercadoria não era lá essas coisas.