Marcinho tinha dois amigos imaginários. Coisa de filho único.
Um se chamava Batuta. O outro se chamava Cagão.
- Meu filho, esse amigo é muito feio. Só o Batuta pode entrar aqui em casa.
Mãe, pai, avôs, avós, padrinho, madrinha, tias solteironas, todos zelosos pela educação do menino, convocaram para uma reunião o Dr. Valdetaro.
- O menino está com palavreado horrível, Doutor. Diz que tem um amiguinho invisível que nem podemos declinar o nome.
Chegaram a uma conclusão.
Compraram um cachorro. E antes que Marcinho abrisse a boca, deram o nome de Batuta ao animal.
Semana seguinte, Batuta teve um desarranjo do cão.
Saltitante, sujou os sofás, as poltronas, as almofadas das cadeiras, as colchas, as barras das cortinas, o persa da sala de jantar.
De tanto pular e abanar o rabo, respingou o que pode nas paredes.
Deixou um rastro no corredor.
Salpicou de marrom o retrato pintado a óleo da falecida bisavó Evangelina, matriarca da família. Marcinho tentou consolar a mãe, que soluçava:
- Eu sabia, mamãe. Ele não era o Batuta.
Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV Publit 2007