set 2

 

Na recém-inaugurada padaria

“Um Trigo, Dois Trigos, Três Trigos”,

na Praça da Matriz, o menino da caixa,

que também atendia ao telefone, era gago. 

Várias vezes desligaram o telefone na cara dele.

Nunca houve entrega em domicílio.

Num assalto, gaguejou com as mãos.

Não levou um tiro. Levou dois.

Do livro 3O segundos - Contos Expressos - JGV - Publit - 2007

 

 


mar 19

Quando queria chatear Paulo
durante uma recorrente discussão
cinéfilo-etílica, Evandro perguntava na lata:
- Os três filmes de James Dean. Diz. Agora.
O amigo travava. Só conseguia dizer dois.
O terceiro era um branco polar. Sempre.
E saía cada um para sua casa.
Um dia, vingança.
Quatro e meia da manhã, toca o telefone no sono de Evandro.
Era o atormentado e insone Paulo,
dizendo os três filmes de uma só vez,
com a voz nervosa e excitada
de quem tirou um peso da memória.
No que Evandro responde:
Hhhuumm? Aííííí, Paulo! Não é que você acertou?
Então, me diga outra:  o nome do cavalo decapitado no Chefão I
.
Evandro bate o telefone com sorriso de soslaio.
Vira para o lado e volta a dormir.
Paulo volta a não dormir.

Esta história faz parte do livro 30Segundos – Contos Expressos.
Serve também para desafiar os apaixonados por cinema. Quem se habilita a ajudar o Paulo?
Cultura inútil também é cultura.


mar 10

Segue o beato pela seca um bando de molambos.
Olha aos céus, aponta seu cajado para o açude das curas diversas.
Largam-se muletas, espalham-se trapos ensangüentados
pelo chão rachado de sol.
Mergulham os esfarrapados, carentes de água e vida boa.
Dançam como se estivessem na chuva. Salpicam-se uns nos outros.
Parecem crianças.
Até que dormem. No raso que restou da poça de lama.
Eis que se dá a desgraça.
Amanhece o leproso tísico.
O canceroso com malária, o cego com conjuntivite,
o paralítico com impaludismo, o tuberculoso com sífilis.
A anêmica perdeu os seios. O perneta não pára de tossir.
Aos endividados, esquistossomose.
Cadê o beato? Cadê o beato?
Preso. Acusado de crime contra a saúde pública.

Do livro 30Segundos-Contos Expressos. JGV. Publit. 2007


fev 9

A partir de hoje,
os contos expressos do livro 3O Segundos
estão no www.mundomundano.com.br.
Alguns já foram postados aqui,
mas toda segunda feira você pode conferir os outros 56.
Mundanos, gente de toda espécie,
suicidas, prostitutas, solitários,
amantes descabidos e seres humanos comuns
desfilam suas peculiaridades em short stories,
minifábulas, hai-kais, nano contos,
que nome tenha.
Numa linguagem ágil que não perde tempo.
É o mesmo DNA que deu origem a este blog.
É  também mais uma oportunidade
para você conhecer e virar freguês
de um dos sites mais criativos
e instigantes já inventados.
Para que não sabe, MundoMundano
é uma porta democraticamente aberta
para o infinito da criatividade,
da arte e da leitura.


jan 19

Gostava de fazer swing.
Todo sábado levava a mulher a uma sauna mista.
No calor da neblina densa,
pegavam-se todos com todos.
Sem nomes, nem identidades.
Ainda usavam vendas nos olhos.
Fetiche delicioso, obrigatório.
Entregues ao tato e à própria sorte.
Um dia ouviu uma voz. Um gemido. Um segredo.
- Devagar, moço…
Sussurrou:
- Hummm… ninfetinha gostosa.
Silêncio.
- Pai!? O que que  você está fazendo aqui?

.
Do livro “30 Segundos - Contos Expressos”
JGV - Publit - 2007


dez 31

Deveria ser ao contrário.
Em sete dias da semana, seis para descansar,
um para o trabalho.
Domingo. Trabalhar só domingo.
Todo mundo ficava mais produtivo,
mais objetivo, mais feliz.
Domingo, então seria a segunda-feira com cara de sábado.
E férias?
Simples. Não temos 20 dias de trabalho no ano
como descanso remunerado?
Então, teremos 20 domingos no ano sem trabalhar.
Faz as contas.
Toda vez que Geraldo vai à praia,
no último dia do ano,
pensa nisso.

Do livro 30 segundos - Contos expressos

JGV - Publit - 2007


nov 12

O negócio de Abigail sempre foi vender o corpo.
Aos 15 anos, raspou a cabeça. Vendeu as madeixas para um fabricante de peruca.
Aos 18, vendeu tudo numa noite. Para um empresário.
Aos 19, para uma revista. Frente e verso.
Aos 21, entrou para uma agência. Foi batizada de Bibi.
Aos 23, quem comprou foi a dona de um bordel.
Aos 36, aposentou-se como Bibizona.
Zanzou pelas ruas.  Sem domicílio. Sem freguesia.
Nem boca conseguia vender.
Aos 45, vendeu um rim.

Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV - Publit - 2007




out 30

Maria Cecília desafiava o tempo.
Venceu estrias e celulites, pés de galinha e pelancas.
Silicones, lazer, cremes para isso, cremes para aquilo.
Botox, massagens, hidroginásticas. Pílulas e mais pílulas.
Rejuvenescimento celular.
Medicina ortomolecular. Recomposições hormonais.
Ginástica de todas as modalidades.
Até pompoarismo.
Reconstituiu hímem, aparou os grandes lábios, implantou pelos recônditos.
Esticou tudo que podia.
Só não fez plástica na saudade.
Foi-se de tristeza.

Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV - Publit - 2007


out 15

Nasceu Renato, mas queria ser Renata.
Cresceu Renato, com jeito de Renata.
Amadureceu Renato, quase Renata.
Nada de cirurgia. Só hormônios. E muita frustração.
Sonhava menstruar.
Sonhava com príncipes encantados.
Sonhava parir.
Até que um dia, câncer na mama.
Enfim, Renata.
Morreu feliz.
Não contaram que isso também dava em homem.

Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV - Publit - 2007


out 12

Toca o interfone.
- É o jardineiro, madame.
- Pode subir, diz Márcia.
Ao abrir a porta de serviço, Márcia puxa Henrique pelos braços.
E enfia-lhe no quartinho reservado a vassouras, ferramentas, coisas úteis e inúteis.
Despem-se sôfregos.
Henrique vira a madame de cabeça para baixo e ali mesmo produzem um 69 em pé.
Na medida do espaço. Na medida da urgência.
Gozam quase que simultaneamente.
Ainda ofegante,  Márcia se manifesta:
- Meu marido quando chega de viagem, sempre reclama que o canteiro da varanda está mal cuidado, as samambaias estão pálidas e as avencas não vingaram. Prometi demitir o jardineiro. Vamos ter que trocar a senha.
Henrique sugeriu bombeiro hidráulico.
Ótima idéia.
Passaram a se encontrar na hidromassagem.
Com direito a banho de espuma.

Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV - Publit - 2007


set 18

Marcinho tinha dois amigos imaginários. Coisa de filho único. 
Um se chamava Batuta. O outro se chamava Cagão. 
- Meu filho, esse amigo é muito feio. Só o Batuta pode entrar aqui em casa. 
Mãe, pai, avôs, avós, padrinho, madrinha, tias solteironas, todos zelosos pela educação do menino, convocaram para uma reunião o Dr. Valdetaro. 
- O menino está com palavreado horrível, Doutor. Diz que tem um amiguinho invisível que nem podemos declinar o nome. 
Chegaram a uma conclusão. 
Compraram um cachorro. E antes que Marcinho abrisse a boca, deram o nome de Batuta ao animal. 
Semana seguinte, Batuta teve um desarranjo do cão.  
Saltitante, sujou os sofás, as poltronas, as almofadas das cadeiras, as colchas, as barras das cortinas, o persa da sala de jantar.
De tanto pular e abanar o rabo, respingou o que pode nas paredes.
Deixou um rastro no corredor.
Salpicou de marrom o retrato pintado a óleo da falecida bisavó Evangelina, matriarca da família. Marcinho tentou consolar a mãe, que soluçava:
- Eu sabia, mamãe. Ele não era o Batuta.

 Do livro 30 Segundos - Contos Expressos
JGV Publit 2007

 


set 5

Quando queria chatear Paulo durante uma recorrente discussão cinéfilo-etílica, Evandro perguntava na lata:
- Os três filmes de James Dean. Diz. Agora.
O amigo travava. Só conseguia dizer dois. O terceiro era um branco polar.
Sempre. E saía cada um para sua casa. 
Um dia, vingança. Quatro e meia da manhã, toca o telefone no sono de Evandro. Era Paulo:
-  Vidas Amargas!!!, seu filho da puta!!!
-  Hhhuumm? Aííííí, Paulo! Não é que você acertou? Então, responde outra: o nome do cavalo decapitado no Chefão I.
Evandro bate o telefone com sorriso de soslaio.  Vira para o lado e volta a dormir.
Paulo volta a não dormir. 

Do livro 30 segundos - Contos Expressos
JGV Publit 2007 


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