nov 17

 

Ao indagado sobre a existência de Deus,

o escritor Jose Saramago respondeu:

“Se Deus existisse não faria o que fez com o povo de Santa Catarina.”

Tal opinião se deu por ocasião das enchentes devastadoras naquele estado

e de lá para cá, o Nobel de literatura entrou numa cruzada ateísta,

tão pregadora quanto a de qualquer jesuíta em catequese.

Sou ateu, como disse LF Veríssimo, não praticante.

Acredito no ser humano, na sua ilimitada capacidade

de criar e buscar conhecimento, e na sua incapacidade

de dar respostas aos mistérios.

Mas não faço da minha “fé”uma bandeira a ser divulgada.

Crenças religiosas ou não crenças cada um tem a sua.

Admito o quanto de confortante seja para os flagelados da vida,

que perdem tudo de material de uma hora para outra,

ter uma uma fé, um fio de esperança sequer para continuar vivendo.

Em seu mais recente livro, Caim,

Saramago desfila seu talento absurdo e sua intimidade total com o bom texto,

coisa que me faz um hipnotizado e voraz leitor de suas obras.

No entanto, ouso dizer que ele está virando um xiita ateu,

que faz de suas palavras bem escritas uma bíblia a ser seguida, religiosamente.

E se Deus lhe é tão perturbador,

desconfio que ele considera a sua existência, mesmo que à avessas.

Eis a contradição. Coisa que dá até em gente inteligente.  

 


jul 14

 

 

 

 

O inexplicável tem lá sua explicação:

o blog foi vitima de um ataque de spam.

Tivemos em menos de um dia cerda de 600 comentários

de indústria de remédios tipo Viagra, Xenical e outros tantos prosaicos,

anunciuando suas propriedades.

Imagina o transtorno?

Demos uma limpa geral, criamos um anti-spam

e certamente muitos comentários devem ter sido apagados injustamente.

Se você é um comentarista assíduo,

por favor, mande um comentário para registrar seu nome sempre bem vindo.

Se você vai comentar pela primeira vez, mande também.

Na internet, também temos que separar o joio do trigo.

Desculpe, mas essa coisa toda é muito chata.  

 

 

 

 

 

 

 


jun 3

 

 

Semana passada, escrevi para o

www.mundomundano.com.br

o artigo Uma História Horrível,

sobre o repertório de obras macabras reais

que somos obrigados a engolir na vida.  

Infelizmente, este artigo ficou ultrapassado

pela brutalidade de dois acidentes aéreos

muito próximos no tempo e no espaço.

Impressionante a força que as tragédias monumentais

exercem sobre nós.

Ficamos chapados, deprimidos,

obsessivamente curiosos sobre detalhes do acontecido,

como se quiséssemos aplacar a dor solidária.

Imaginamos os instantes que antecederam a desgraça,

refazemos o roteiro na nossa cabeça,

como personagem de uma historia que não é nossa,

mas bem poderia ter sido.

Quando temos pessoas conhecidas envolvidas

nossos sentimentos, então, entram numa turbulência,

com o perdão do trocadilho infame e inoportuno.

Inconformismo, injustiça, desespero, saudade,

“por que não foi diferente?”, “ e se isso?, “ e se aquilo?”,

“Quem é o culpado? Deus? O diabo? o piloto? O governo?

A ação do homem sobre o clima do planeta? Santos Dumont?”,

tudo chacoalha dentro da gente.

As catástrofes de grandes proporções são cruéis e absolutas.

Tendem a reduzir o assalto ali na esquina

a um conto de fadas infeliz ou numa historinha

de bruxa para assustar criança.

O que é mais um efeito doloso e egoísta das tragédias.

 

 


mai 19

 

Reparou como em Caminho das Índias

os personagens falam Hare Baba

a três por dois,  sem mais nem menos?

Tá com raiva? Hare Baba!

Tá feliz? Hare Baba!

Tá surpreso? Hare Baba!

Ta desolée? Hare Baba…

Ta intrigado? Hare Baba?!?

Ta comovido? Ha-re Ba-ba!

Ta apressado? Hare Baba! Hare Baba!

Descobri.

Para mim, Hare Baba quer dizer…caralho.

Ou melhor: caraio (palavra mais amena que,

se não tem nada de fofinha no seu significado,

no mínimo, é menos chocante quando escrita).

Experimente fazer o teste.

Aplica-se em qualquer situação da dramaturgia,

funciona com qualquer inflexão, modula-se

conforme o humor.

Assim.

Ta com raiva? Caraio!!!

Ta feliz? Caraiooooooooo!

Ta supreso? Caraaaaio!

Ta desolée? …caraio…

Tá intrigado? Caaaaraio?!?

Ta comovido? Ca-ra-io.

Ta apressado? Craio, craio!

Assista ao capítulo de hoje.

E toda vez que alguém disser Hare Baba,

substitua pela versão impura.

Você vai ver que se encaixa direitinho.

Hare baba! Dá certo!

 

 

 

 


mai 9

 

 

Desde que voltou dignamente para a primeira divisão,

o Botafogo recuperou sua autoestima, saiu da pindaíba moral e financeira,

disputou 4 finais do Carioca, foi campeão em uma delas,

foi campeão de Taças Rio e Guanabara,

e vendeu camisas de ídolos históricos como nunca.

De fato, andou entregando a Copa do Brasil e a Sul Americana

e perdeu três finais para o Flamengo.

A primeira foi esquisita, a segunda normal e a terceira por um triz.

Dois gols contra de um mesmo zagueiro, bolas na trave,

dois jogadores fundamentais se machucando no mesmo instante.

Com garra e paixão, mesmo combalido,

conseguiu empatar a finalissima e levar a decisão para os pênaltis.

E aí não foi loteria: o excelente goleiro Bruno

cuidou de decidir um campeonato,

onde qualquer um dos dois poderia ter sido o justo campeão.

Além disso, o craque eleito foi Maicosuel,

estrela revelação que caiu como uma luva no ataque mais positivo do Carioca.

A diretoria está empenhada em manter o ótimo técnico

que deu padrão competitivo ao time, em segurar os jogadores essenciais, promover

bons juniores e ainda buscar reforços para encarar as pedreiras que vem por aí.

E mesmo assim, antes mesmo de começar o Brasileirão,

já tem cronista dizendo que o Botafogo é candidato a cair para Segundona.

É mole?

Só me resta apelar para o velho e verdadeiro clichê:

tem coisas que só acontecem com o Botafogo.

 

 


abr 29

Abra o jornal O Globo no dia seguinte a alguma grande operação policial em favelas cariocas e vá até a seção “carta dos leitores”. É um exercício antropológico formidável.

Em tais operações, como se sabe, a polícia costuma executar traficantes e “supostos traficantes”. (Soldados do BOPE, lembre-se, não carregam algemas.) E, sempre que isto acontece, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou alguma ONGs ligada aos direitos humanos entra em cena, denunciando o crime: bandidos, “supostos” ou “de fato”, também têm direito a julgamento.

É o que basta para as cartas começarem a chegar. “Onde estão a OAB e as ONGs de direitos humanos quando nós, pessoas de bem, nos tornamos vítimas de criminosos?”, vociferam alguns leitores. “Relativistas!”, gritam outros.

O que os leitores falham em perceber é que este relativismo de que acusam a OAB é apenas aparente. Na verdade, a atuação da OAB se dedica a tentar corrigir o relativismo que realmente importa, tão arraigado que chega a nos parecer “natural”. Trata-se do hábito das classes média e alta de pensar que, dentro da favela, vale tudo – mas não nos bairros nobres, não na Zona Sul, não na “nossa casa”. Ao diabo com o Estado de Direito para os miseráveis: ele é exclusividade nossa, dos civilizados.


abr 27

A construção de muros destinados a cercar 11 favelas do Rio de Janeiro não é apenas mais um capítulo do longo histórico de equívocos da atuação do poder público. É sua apoteose, a expressão mais cristalina de uma mentalidade que domina a política brasileira em geral e a carioca em particular – uma mentalidade baseada na lógica da repressão, exclusão e  isolamento.

São muitos os exemplos. O Código de Posturas Municipais de 1890 proibiu o jogo, a boemia, a capoeira e a venda de comida na rua, enfim, boa parte do estilo de vida das classes populares. Mas as favelas, enclaves urbanos tidos como incivilizados, se multiplicaram ao longo do século XX. Então o foco das políticas públicas mudou, e a remoção de moradores e áreas favelizadas passou a ser prioridade: na administração de Carlos Lacerda (1962-65), mais de 40 mil pessoas foram removidas, em 27 favelas; na de Chagas Freitas (1971-74) foram quase 140 mil, em 80 favelas. E quando, a partir dos anos 80, explodiu a violência associada ao tráfico de drogas, o poder público rapidamente voltou suas energias para a repressão e o enfrentamento, cujo símbolo maior talvez seja o “Caveirão” do Bope.

Em resumo: primeiro, tentou-se, por decreto oficial, europeizar os costumes dos moradores das favelas. Não funcionou. Depois, o Estado tentou remover a favela para longe dos olhos da Zona Sul – no que também não foi bem sucedido. Finalmente, dada a presença incômoda da violência nas ruas e do medo nos jornais, a última tentativa: a deflagração de uma guerra, que atropela os direitos humanos e garantias civis de quem mora nas comunidades atingidas. Outro fiasco: o tráfico continua vendendo, os consumidores comprando, e a criminalidade segue assustando a todos.

Em artigo publicado no jornal O Globo de 5/4/2009, Elio Gaspari denunciou a falácia por trás dos argumentos mobilizados para justificar a construção dos muros. Não se trata, diz Gaspari, de uma medida para conter a expansão das favelas – as comunidades escolhidas, quase todas na Zona Sul, cresceram apenas 1,2% nos últimos 10 anos –, mas de uma “fantasia demófoba e irracional” cujo objetivo é fixar os limites do medo, demarcando também uma sensação (ilusória) de proteção. Mais uma iniciativa condenada ao fracasso.

É condenada ao fracasso porque a lógica que a sustenta é falha, equivocada. Não importa se você é de “direita” ou “esquerda”: se ainda resta um pingo de pragmatismo por trás de suas convicções, você será obrigado a reconhecer que esta lógica – de isolamento, repressão e exclusão – teve mais de um século para se provar eficiente no que diz respeito à favela, e não conseguiu. Se restar, pois, este pingo de pragmatismo, você começará então a considerar uma alternativa: o esforço sério e contínuo de agir conduzido por uma outra lógica, da inclusão, do acesso à educação, da rotina vivida sob o Estado de Direito. Muito provavelmente, você deixará de pensar na favela como uma doença a ser erradicada e passará a enxergá-la como um sintoma, não do nosso atraso econômico, mas sim de nossa insistência em utilizar a lógica errada para lidar com as conseqüências deste atraso.


abr 24

E para fechar:

3. Deleuze tinha razão quando diagnosticava o capitalismo rizomático, isto é, um novo modo de funcionamento do sistema capitalista, em tudo diferente do antigo modelo fordista. Trata-se de um capitalismo descentralizado, que se espalha em redes: o entretecer contínuo de novos agentes, a emergência incessante de novas possibilidades. Antes do Pirate Bay, o Napster já havia sido processado e condenado. Agora falta a justiça ir atrás do Mininova, Isohunt, Btjunkie, Torrent Reactor, Torrentz, Demonoid, Fulldls, SeedPeer, BTMon, Torrent Box, Bit Torrent Monster…


abr 22

Segundo palpite:

2. Thomas Kuhn tinha razão: o avanço científico realmente revolucionário não se dá através de acúmulo de conhecimento, como se uma descoberta fosse o desdobramento inevitável de outra anterior. Ao contrário, são as rupturas com o conjunto de regras e idéias aceitas num dado momento (os “paradigmas”) as grandes responsáveis pelos saltos de inovações. Pois bem: o que se vê em sites como o Pirate Bay é a cristalização de um novo paradigma no mundo dos negócios. Conformem-se, burocratas do velho mundo. O jogo mudou, as regras são outras – vocês não têm mais todas as cartas nas mãos. Parem de chorar. E adaptem-se, se é que querem garantir a sobrevivência daqui pra frente.


abr 21

Saiu na última sexta-feira, na Suécia, o resultado daquele que é talvez um dos julgamentos mais importantes de nosso tempo, o do Pirate Bay, site de compartilhamento de arquivos em torrent. Os fundadores do Pirate Bay foram condenados a 1 ano de prisão e a pagar indenizações à empresas de mídia (Fox, Warner, Columbia Pictures etc.), que somam 3,5 milhões de dólares. Trata-se de uma decisão na contramão da história — o futuro pertence ao copyleft, ao compartilhamento livre de arquivos, ao acesso cada vez mais democrático à informações em rede.

Alguns palpites sobre o tema:
1. Marx tinha razão. Ele afirmou no século XIX que a burguesia, após liberar uma quantidade incrível de energia revolucionária, tentaria para sempre segurá-la, contê-la o quanto fosse possível; mais ou menos como um feiticeiro que não sabe lidar direito com os poderes que trouxe à tona. É o que está acontecendo, de novo. Marx, contudo, equivocou-se num ponto. Não é o proletariado o agente da mudança. A revolução nasce em todos os lugares – nerds ambiciosos do Vale do Silício, chineses ávidos por novidades, suecos que querem bagunçar o coreto do establishment.


abr 16

Bush e o Coringa (Heath Ledger, em “Batman, O Cavaleiro das Trevas”) num “diálogo” tenso sobre a atual crise econômica nos EUA — e sobre como sair dela.


abr 14

Muito apropriadamente, um dos passatempos preferidos da direita ultra-conservadora e da velha guarda comunista é uma espécie de campeonato mórbido de acusação mútua – para ver quem matou mais. A direita fala em URSS, China, Cuba, Cambodja etc.; a esquerda, em Alemanha, Argélia, Chile, Argentina, Iraque, Brasil e assim por diante. Neste joguete, radicais de direita e esquerda estão unidos na percepção de que somente as atrocidades cometidas pelo vizinho são passíveis de crítica. As mortes, as humilhações, a dor infringida dentro de casa, não – porque, afinal, visam a um fim intrinsecamente virtuoso, um bem superior cuja realização futura redimirá a tudo.

É natural que extremistas raramente se dêem conta de que os extremos se tocam. Se fossem capazes de perceber que as semelhanças entre si são maiores e mais importantes que as diferenças, talvez deixassem o radicalismo de lado.


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