jun 23

 

 

Um jovem idoso de hoje 92 anos

aprontava todas na mocidade.

Certa vez, ele e sua turma

quiseram se vingar de um inglês chato e pedante,

que aportou no Rio de Janeiro com a dupla ameaça

de roubar empregos e cortejar moças da sociedade carioca. 

Por ser exibido e rebuscado,

caiu numa armadilha o arrogante infeliz.

Levaram o estrangeiro a uma festa de 15 anos

de uma jovem de família poderosa e tradicional,

num casarão em Botafogo.

O idoso de hoje e traquina de outrora

chamou o inglês num canto

e disse que o pai da aniversariante

havia lhe concedido a honra de recitar um verso

em homenagem à donzela.

Em seguida, cochichou ao dono da festa

que um representante da realeza britânica

gostaria de dizer algumas palavras à sua filha.

E colocaram no smoking do inglês o discurso pronto.

Tão logo o bolo de 15 velinhas acesas adentrara aos salões,

mesmo sem saber uma palavra de português,

o  britânico engomado retirou um papelzinho do bolso.

E com um sotaque de arrasar,

trejeitos de mau Laurence Olivier,

declamou a honraria

como se tivesse escrito algo shakespeareano

do fundo da sua alma.

 

15 anos!

Idade sem parelhos

com três coisas a crescer:

peitinhos, pentelhos

e vontade de foder.

 

Diz o jovem idoso travesso, às gargalhadas,

que o incauto de tanto apanhar correu até a Praça Mauá,

onde se enfiou nos porões do primeiro vapor do píer.

Deve ter ido parar na Argentina.

E se dado muito bem na vida, quem sabe.

 

 

Nota do editor:

esta história me foi contada pelo eternamente jovem avô da minha mulher.

Que nega autoria da travessura, mas conta o causo como se os versos fossem seus.

Não duvido.

 

 

 

 


nov 3

Dois advogados encontram-se na entrada de um motel.
Cada um está com a respectiva mulher. Do outro.
Instantes eternos de constrangimento.
Conseguem, enfim, travar um diálogo.
- Nobre colega, que situação.
- Nobre colega, que situação.

Um deles propõe um acordo.
- Nobre colega, para evitar piores desdobramentos deste infortúnio, sugiro cada um

devolver a mulher para o outro. Vamos embora e não falemos mais no assunto. É o correto e o justo.
- Nobre colega, concordo que seja o procedimento mais correto. Mas não é justo.
- E por que não seria justo, nobre colega?
- O nobre colega está saindo. E eu apenas chegando.


Esta história foi extraída do monólogo “A Alma Imoral”, de Clarisse Niskier, atualmente em cartaz no Teatro Eva Herz, na Livraria da Cultura, São Paulo.

.


set 4

O jornalista uruguaio Ernesto González Bermejo entrevista Júlio Cortázar: 

Bermejo: “Jorge Luis Borges, que, como você me dizia, foi o seu indiscutível mestre literário – e há razões para isso –, deu, no plano político, um apoio total ao atual governo argentino, e visitou Pinochet, de quem recebeu uma condecoração. Como você vê a atitude dele neste plano?”

Cortázar: “Eu imaginava que não sairíamos dessa conversa sem que aparecesse a sombra ilustre. Sim, ilustre. Digo isso sem ironia, porque já deixei claro o reconhecimento à lição de rigor e de economia de linguagem que devo – devemos – a Borges. Mas o outro, o cego integral, aquele incapaz de aceitar o que a sua inteligência não pode ocultar-lhe no plano da história, este não merece mais que o meu silêncio. Nem condená-lo vale a pena.”

[do livro "Conversas com Cortázar"]

 


ago 28

Penitenciária Estadual de Concórdia (EUA), março de 1961. O PhD em psicologia e professor da pós-graduação em Harvard Timothy Leary começa a implementar um projeto experimental de recuperação de presidiários através da administração regular de doses de LSD. O diálogo que se segue aconteceu durante a primeira sessão do tratamento. Todos na cela, inclusive Leary, haviam ingerido LSD.

– E aí, John?
– Estou bem.
– E você, doutor Leary?
– Estou péssimo.
– Qual é o seu problema, doutor?
– Eu estou com medo de você.
– Bom, é engraçado, doutor, porque também estou com medo de você.
– Porque você está com medo de mim?
– Porque você é um criminoso. E você, por que está com medo de mim?
– Estou com medo porque você é um cientista louco da porra!

[extraído de "Flashbacks", autobiografia de Timothy Leary]

 


ago 21

Reporter: “Mr. Gandhi, what do you think of the western civilization?” 

Mr. Gandhi: “I think it would be a good idea.”


ago 18

“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. (…). Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saí delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me, tragar-me.” 

Machado de Assis, Dom Casmurro.

Começou o Festival 30” de Metáforas. Machado sai na frente. Podem fuçar nos livros e nas músicas imagens tão ou mais expressivas. E mandem pra gente. O prêmio? Lê-las.

 

 


ago 14

16 de agosto de 1944, QG do exército alemão em Paris.

Taittinger: “Os generais têm com frequência o poder de destruir, raramente o de edificar. Imagine que um dia o senhor volte aqui como turista, contemplando de novo todos estes testemunhos de nossa história, e possa dizer: ‘Fui eu, o general Von Choltitz, que um dia poderia tê-los destruído, que os conservei como um donativo à humanidade’. General, isso não vale toda a glória de um conquistador?”

Von Choltitz: “O senhor é um grande advogado por sua cidade, e fez o seu dever. Eu, como general alemão, devo fazer o meu”.


ago 7

Gay Telese, um dos maiores expoentes do jornalismo literário americano, entrevista o boxeador Floyd Patterson, após este haver perdido pela segunda vez para Sonny Liston, por nocaute no primeiro round. [em Talese, Gay. Fama e Anonimato. São Paulo: Companhia das Letras, 2004] 

   Quando você começou a achar que era um covarde?

 – Depois da primeira luta contra Ingemar.

 – Como é que se pode perceber essa covardia de que você fala?

 – Você vê quando um lutador perde. Ingemar, por exemplo, não é um covarde. Quando ele perdeu a terceira luta em Miami, foi a uma festa no Fointainebleau. Se eu tivesse perdido, não iria a uma festa. (…) É fácil fazer qualquer coisa quando se é o vencedor. É na derrota que o homem se revela. Quando sou derrotado, não consigo encarar as pessoas. Não tenho força para dizer às pessoas: ‘Fiz o que pude, desculpem-me etc. e tal’.