Há um outdoor tão misterioso quanto inusitado em alguns pontos da Zona Sul carioca.
Uma foto ocupa toda a extensão vertical do lado direito do painel. Nela, vê-se um homem que aparenta cerca de 40 anos, longilíneo, de orelhas grandes e um olhar que não fita diretamente a câmera, apoiando a mão esquerda no ombro de uma senhora sentada à sua frente. Ela tem a expressão grave. Usa óculos grandes, de lentes cor âmbar, e veste uma camisa bege adornada com pequenos losangos escuros.
Por sobre a parte superior da foto, lê-se ATENÇÃO, destacado dentro de um quadrinho de cor vermelha. O restante do outdoor, isto é, a maior parte de sua extensão horizontal, é preenchida por um texto que diz assim:
“Devido a uma herança, quadrilha que age no Rio de Janeiro, fazendo-se passar por empresa de cobrança, está nos ameaçando de morte, usando de perseguições, escutas e filmagens dentro de nossa casa, envenenamento, contaminação por vírus de doenças, acidente forjado de carro, assalto e seqüestro.
Já tivemos um familiar assassinado.
Quem souber informações que ajude a identificá-los, por favor informe a Polícia ou ligue (21) 8364-8288.”
Movido pelo desejo de conhecer a história por trás do texto, e pela atração inconfundível que em mim exerce o bizarro, ligo para o número. Quando a voz masculina atende, me apresento: digo meu nome, que sou doutorando em ciências sociais, pesquisador de fenômenos ligados à violência urbana, e que gostaria de saber um pouco mais sobre o motivo da colocação do outdoor.
Mas não consigo arrancar uma mísera informação – como se chamam, aonde moram, o que fazem da vida, quando os episódios criminosos começaram, o que a polícia diz a respeito. Nada. A voz, aflita, se nega a dar detalhes. Diz apenas que já sofreu muito, que teve um irmão assassinado. Insisto, explico que não sou jornalista à cata de manchete, mas sem sucesso. Do outro lado da linha está alguém irredutível, que começa a me desejar boa sorte nos estudos e se diz atrasado para um compromisso.
“Até contaminação por vírus de doenças eles tentaram?”, pergunto, numa última tentativa.
“É, eles entraram aqui em casa e colocaram alguma coisa na comida, porque no dia seguinte todo mundo teve diarréia e foi pro hospital.”
Penso em retrucar “Mas não pode ter sido uma maionese estragada, ou algum alimento fora do prazo de validade?” – mas desisto. Agradeço, e desligo o telefone.