jul 21

O Xexéo de hoje (21.07) no Globo faz uma confusão danada.

Ao denunciar justamente os (não raros) maus tratos que sofreu

de uma TV por assinatura, o colunista ironiza a empresa

citando o slogan “tá barato pra caramba”

alardeado pelo Bruno Mazzeo.

Só que este slogan é de uma outra marca, de uma outra categoria.

Cabe uma reflexão a nós publicitários:

a missão de dar personalidade a uma marca

é um desafio cada vez mais espinhoso.

Se a imensa avalanche de informações publicitárias

confunde  até mesmo quem é profissional de comunicação,

como o Xexéo, imaginem o que se passa

na cabeça e no coração do consumidor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


mai 3

 

Deu no Gente Boa do Globo

que a militância petista anda

se desejando “bom dia” assim:

“bom Dilma, bom Dilma.”

Trocadilho desgraçado.

Se ouvir uma dessas, vou responder:

Bom Sarney,

Bom Collor,

Bom Ahmadinejad,

Bom Dirceu,

Bom Chavez,

Bom Morales,

Bom Fidel,

Bom Garotinho.

Se esqueci de algum outro

nome infame, me ajudem.

 


abr 30

Já estão ficando sem graça esses comerciais de TV

que fazem piada com argentinos.  

Mais do que ultrapassada, é uma rixa inoportuna. 

Os hermanos estão alguns anos luz na nossa frente em vários aspectos.

Além do Messi e do impecável “O segredo dos seus olhos”,

a Argentina deu ao mundo outra lição,

desta vez, de justiça e civilidade:

botou todos os generais da sua ditadura na cadeia

por crimes contra a humanidade.

Enquanto isso, nossos “facínoras”

(expressão imortal de Ulysses Guimarães),

estão por aqui à solta, querendo colocar o passado de estupidez

debaixo do tapete.

Quem está rindo de quem?

 

 

 


mar 10

 

Um jovem candidato a roteirista procurou

o produtor de um estúdio de filmes B em Hollywood.

Foi recebido numa sala empoeirada, com poster

de filmes catastróficos e sanguinolentos na parede. 

Depois de ler o calhamaço de idéias do menino,

o produtor deu duas baforadas no charuto e setenciou:

 

- Meu filho, um garoto de 4 anos é esmagado pelo portão

da garagem eletrônica do seu prédio, uma treinadora é comida pela sua orca

em pleno show,  terremotos devastadores seguidos

de tsunamis implacáveis, quando um avião de resgate cai

e mata todos os seus ocupantes.

E para terminar: um jogador de futebol de salão escorrega na quadra

e uma lasca de madeira no assoalho entra pelo seu intestino,

causando uma hemorragia. O cara morre em horas. 

Meu filho, é desgracento demais até para o mercado de filmes trash.

 

O menino saiu meio desanimado e foi se queixar com o diabo.

Resultado: todas suas idéias foram produzidas.

E estão em cartaz na vida real.

 

 


jan 7

 

Antes que os preconceituosos do contra ou a favor

destilassem seus venenos ou jogassem suas águas de rosas,

fui ver o filme do Lula na estréia.

Até gostei.  Cinema do bom. Gloria Pires fantástica. Direção precisa.

Idolatria na medida de um personagem que nasceu com um xis de líder na testa

e, queira ou não queira, já mostrou ao mundo que é o cara.

Preferências eleitorais à parte,

o filme é um retrato importante e sincero da história de um Brasil

imerso numa ditadura em adiantado estado de decomposição.

Para os que não sabem ou não querem se lembrar,

houve uma ditadura militar sim, criminosa e descabida,

capaz de deixar um legado de amnésia e um rastro de impunidade,

além de uma dívida externa monstruosa,  uma inflação paralisante

e uma  total falta de noção de cidadania e respeito pelos direitos civis fundamentais.

Pois bem. O próprio diretor do filme confessa numa entrevista

que sua família cinematográfica sempre apoiou essa ditadura

em troca de favorecimentos a seus negócios. 

Diz  Fábio Barreto:

Tivemos relações (uiii!!) com a ditadura militar.

E nós conseguimos fazer o cinema sobreviver porque tivemos relações com eles.

Eles são (são??) o poder, e a gente precisa do poder

para conseguir fazer o que a gente quer. Entendeu?”

Entendi.  E fiquei enojado.

Infelizmente, o Brasil também tem filhos assim.

 


ago 4

 

Diz um carioca neopaulistano,

surpreendentemente feliz e adaptado

à sua nova vida na maior metrópole

da America Latina:

 

Só sinto falta de duas coisas: da praia

   e do presente do subjuntivo.

 

Ele explica:

 

De todas as diferenças de sotaques e linguagem

   entre paulistas e cariocas,

   muitas são engraçadas e pitorescas:

   farol e sinal, guia e meio-fio, cara e ô meu.

   O que dói mesmo é a ausência total do presente do subjuntivo.

   Em São Paulo quase ninguem fala: “Quer que eu feche a porta?”

   Muita gente boa manda um sonoro: “Quer que eu fecho a porta?”

   Sim, muita gente boa, no sentido mais amplo, universal

   e democrático da expressão.  

 

Ele exemplifica:

 

 - A gerente do banco: “Quer que eu aplico”

   O porteiro atencioso: “Quer que eu carrego?”

   O feirante simpático: “Quer que eu embrulho”

   O dentista cuidadoso: “Quer que eu anestesio?”

   O guardinha compreensivo: “Quer que eu multo?”

   O advogado proativo: “Quer que eu assino?”

   O garçom solícito: “Quer que eu sirvo?”

   O amigo prestativo: “Quer que eu compro?”

 

E sua lista de exemplos não para por aí.

Mas um deles é de cortar qualquer barato,

senão os pulsos.

 

- A namorada cerimoniosa: “Quer que eu chupo?”

 

 


abr 15

Por Marcelo Conde
“O Mistério do Samba” é um documentário sobre a Velha Guarda da Portela. Por não se tratar de um filme com uma estrutura narrativa muito definida, e também por ser um documentário, seus melhores momentos são justamente os que não eram previstos.

Argemiro do Patrocínio, sambista da Velha Guarda, conta, no meio do filme que, certo dia, Paulinho da Viola promoveu um encontro entre ele, Argemiro, Chico Buarque e Vinícius.

Vinícius tinha levado para o encontro a única companheira de quem jamais se separou na vida: a garrafa de uísque. Paulinho levou Argemiro.

Logo de cara, apontando para a própria garrafa, Vinícius pergunta a Argemiro:
Paulinho disse que você escreve samba bem, que faz samba com qualquer coisa. É verdade? Mostra aí. Faz um samba pra essa garrafa.

No que Argemiro respondeu:
Não sinto nada por essa garrafa. Então não posso fazer um samba pra ela. Pra fazer samba eu tenho que sentir alguma coisa.

Simples. Muito simples.


mar 9

Há um outdoor tão misterioso quanto inusitado em alguns pontos da Zona Sul carioca.

Uma foto ocupa toda a extensão vertical do lado direito do painel. Nela, vê-se um homem que aparenta cerca de 40 anos, longilíneo, de orelhas grandes e um olhar que não fita diretamente a câmera, apoiando a mão esquerda no ombro de uma senhora sentada à sua frente. Ela tem a expressão grave. Usa óculos grandes, de lentes cor âmbar, e veste uma camisa bege adornada com pequenos losangos escuros.

Por sobre a parte superior da foto, lê-se ATENÇÃO, destacado dentro de um quadrinho de cor vermelha. O restante do outdoor, isto é, a maior parte de sua extensão horizontal, é preenchida por um texto que diz assim:

“Devido a uma herança, quadrilha que age no Rio de Janeiro, fazendo-se passar por empresa de cobrança, está nos ameaçando de morte, usando de perseguições, escutas e filmagens dentro de nossa casa, envenenamento, contaminação por vírus de doenças, acidente forjado de carro, assalto e seqüestro.
Já tivemos um familiar assassinado.

Quem souber informações que ajude a identificá-los, por favor informe a Polícia ou ligue (21) 8364-8288.”

Movido pelo desejo de conhecer a história por trás do texto, e pela atração inconfundível que em mim exerce o bizarro, ligo para o número. Quando a voz masculina atende, me apresento: digo meu nome, que sou doutorando em ciências sociais, pesquisador de fenômenos ligados à violência urbana, e que gostaria de saber um pouco mais sobre o motivo da colocação do outdoor.

Mas não consigo arrancar uma mísera informação – como se chamam, aonde moram, o que fazem da vida, quando os episódios criminosos começaram, o que a polícia diz a respeito. Nada. A voz, aflita, se nega a dar detalhes. Diz apenas que já sofreu muito, que teve um irmão assassinado. Insisto, explico que não sou jornalista à cata de manchete, mas sem sucesso. Do outro lado da linha está alguém irredutível, que começa a me desejar boa sorte nos estudos e se diz atrasado para um compromisso.

“Até contaminação por vírus de doenças eles tentaram?”, pergunto, numa última tentativa.

“É, eles entraram aqui em casa e colocaram alguma coisa na comida, porque no dia seguinte todo mundo teve diarréia e foi pro hospital.”

Penso em retrucar “Mas não pode ter sido uma maionese estragada, ou algum alimento fora do prazo de validade?” – mas desisto. Agradeço, e desligo o telefone.


mar 5

Baixo Gávea, domingo depois do almoço. Bate aquela vontade de sobremesa, após uma picanha saboreada no “Braseiro”. A moça vai até o balcão do restaurante logo em frente, o Hipódromo, e pede:

– Oi, moço, você tem um Eski Bon?

– Tem sim, 12 anos, Red Label, é só escolher…


fev 22

(História verídica, com exceção de um ou outro detalhe)

Casou-se pela quarta vez. Podiam acusá-lo de tudo, de que era um homem instável, temperamental – menos de que não continuava acreditando na possibilidade do amor, e na vida a dois. Estava novamente apaixonado.

A cerimônia discreta, porém bonita, encheu de água os olhos de familiares e amigos mais próximos. Foi numa tarde de sexta-feira, quente e luminosa, anterior ao início do carnaval. No dia seguinte, seguiriam rumo ao Caribe.

Chegando em casa, ela foi tomar um banho, ele um uisquinho. Toca o interfone.

– João? Vamos tomar umazinha. A última.

– Guentaí.

Pegou a carteira, o maço de cigarro, e foi. Voltou na quarta-feira de cinzas, vestindo uma túnica branca e com um ramo de folhinhas verdes preso atrás da orelha.

Além da mulher, aguardavam-no familiares consternados, amigas enraivecidas, lenços úmidos espalhados sobre a mesa, e um advogado. Não foi uma cena agradável de se ver, os berros, as unhadas e tapas desferidos numa intensidade tal que ele depois recordaria como sendo “mais rápido que a minha velocidade de pedir desculpa”.

Está no sexto casamento, e se lhe perguntam, diz que o amor é a melhor coisa que existe.


fev 12

Num churrasco, uma estrela de primeira grandeza da MPB brasileira encontra João Brasil, autor de hits como “Pau molão”, “O carnaval acabou com o meu fígado” e o clássico “Baranga”. Transbordando simpatia, ela faz questão de ir cumprimentá-lo:

Estrela de primeira grandeza da MPB: “Você é o João Brasil? Já ouvi suas músicas, bacanas.”

João Brasil: “Eu… já ouvi as suas também!”


dez 25

Sim, vou à Bahia.

Deixo alguns posts com o Zé, que os colocará aqui a seu tempo. Como estarei alheio a tudo e todos – o auge da preocupação estando em tomar decisões do tipo “esta cervejinha ficará melhor acompanhada de amendoim ou castanha de caju?”, ou “qual destes coqueiros faz a sombra mais apropriada para uma soneca após o almoço?” –, aviso que não poderei responder os comentários, se os houver.

Um ótimo 2009 a todos.


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