mar 19

Festa no Castelo de Itaipava. Os três amigos, devidamente fantasiados – “Conga, a mulher Gorila”, “Capitão Melancia” e “Sheik Árabe” –, beberam e se esbaldaram  até não poder mais. Mas ao invés de dormir em Itaipava, como seria aconselhável, decidiram voltar de carro, na mesma noite, para o Rio. Por sorte, um fiapo de responsabilidade: Conga, a Mulher Gorila, jogou o carro no acostamento da estrada e decretou que iriam dormir ali.

Acordou com o policial batendo no vidro. Estacionamento em local proibido. Multa. Pior: era caso para apreensão de veículo. E aquele cheiro de álcool, hein?

Conga e Capitão Melancia protestaram, argumentaram, pediram, suplicaram, depois protestaram novamente – e nada. Enquanto isso, o Sheik continuava desmaiado no banco de trás, alheio a tudo.

– Ô gorila, vai lá acordar o camarada. Todo mundo pra delegacia.

Conga sacudiu o amigo, e explicou brevemente o que se passava. O Sheik ergueu o corpo, passou as mãos no rosto, olhou para os lados, bocejou. Pegou o turbante e o ajeitou na cabeça. Saiu do carro e, enquanto se espreguiçava, jogando os braços para cima, anunciou:

– Bom dia. Não há nada que os petrodólares não comprem.


fev 25

Mais uma história verídica (ou quase), apropriada para o carnaval.

Era a noite do décimo terceiro aniversário de casamento. Mas calhou de ele ficar trabalhando até tarde na empresa, e sempre que isto acontecia alguém logo sacava uma garrafa de uísque, copos e muitas pedras de gelo. A medida que o doze anos ia descendo, revigorando idéias e conversas que não tinham nada a ver com o trabalho, grande parte do mundo exterior ia ficando distante, longínquo, um lugar remoto absolutamente alheio àquela mesa de escritório na qual viviam e morriam estatísticas de mercado, projeções de receitas, cortes de pessoal e toda sorte de gráficos muito complexos.

Esqueceu-se da data e da mulher, que o esperava em casa para jantar.

Lembrou por acaso, com um “estalo”, mais ou menos na mesma hora em que Cíntia (nome divulgado) abocanhava o saquinho de sua orelha direita com os lábios grossos, carregados de batom e expectativas de lucro. Sentiu no estômago o aperto, e se recompôs na cadeira, erguendo-se de uma vez só, num movimento brusco. Olhou para o lado e viu os dois amigos muito entretidos, cada qual com uma morena no colo, como polvos ávidos pela exploração de recônditos escondidos, dizendo sacanagens que se perdiam em meio à fumaça dos cigarros e à música alta que impregnavam o lugar. Tomado pelo senso de urgência, levantou-se, disparou em direção à saída e falou a si mesmo – “Fodeu”.

E então, na porta daquele estabelecimento comercial de nobre reputação, avistou um carro de polícia – e teve a idéia que lhe salvaria o casamento. Chegou à porta de casa cabisbaixo e trôpego, os policiais o retirando do camburão com a delicadeza habitual, para desespero da mulher, que sorria e chorava e perguntava com a voz trêmula “o que aconteceu, meu amor? você está bem?”, enquanto lhe passava a mão na testa e afagava os cabelos.

– Minha senhora, nós recolhemos o seu marido por volta das dez e meia da noite, apagado no chão da rua. Aí levamos para a DP, demos uma sacudida nele pra ver se acordava. Demorou, mas… Bem, está aí. Cuidado, que ele ainda está meio grogue.


dez 18

Otávio era conhecido por sua aversão a crianças. Simplesmente as detestava – mesmo que lindas como bebê Johnson e tranqüilas como monges tibetanos. Até que um dia, aconteceu. A esposa engravidou.

Reunidos numa mesa de almoço, os amigos queriam saber detalhes.

“E então, já fez a primeira ultra?”

“Já, mas não deu para ver o sexo.”

“E nomes? Já pensaram em algum?”

“Se for menino, vai se chamar Édipo. Com sorte, quando crescer vai matar o próprio pai”.


dez 11

Numa quarta-feira improvável, dois colegas de trabalho encontram, nos arredores da máquina do café, a musa da empresa. Linda. Inteligente. Morena. Peitinhos sapato de Aladim. Toda cheirosa. O tipo de mulher que desperta todos os pecados capitais, com a provável exceção da preguiça. E ali, medindo a quantidade de açúcar despejada graciosamente no copinho, ela sorri para ambos. Os hormônios não se aguentam, e os dois amigos vão para o tudo ou nada:

- E aí, Marcos, melhorou da gonorréia?

- Tô ótimo. E você, continua broxa?


out 31

Assassinamos-nos uns aos outros metodicamente, e quando a morte surge ceifando um ou dois ou três ou até mais, achamos natural. Ninguém irrompe em choro no enterro, ou tomba inconsolável à noite. Somos uma família normal, e vestimos apenas preto.


out 29

Almoçamos juntos às sextas-feiras por costume herdado – o cimento, a tradição coesiva da família, e hoje veja o que se dá. Confraternizamos, a bebida é de boa qualidade, acordamos de melhor espírito no dia seguinte. Primos, irmãos, genros, noras, sobrinhos, sogras, cunhados, tios, avós, bisavós, sobreviventes, todos, todos, todos se reparam e se espelham, se glorificam e se jactam, se fortalecem em alianças e se traem em cochichos, e se perdem nas miudezas de pequenas inimizades. E isso acontece sempre às sextas-feiras, não abrimos exceção.


out 27

Se nos atacam, se nos tentam asfixiar, levantamos enérgicos e saímos à rua discursando. Os mais novos vão na frente empunhando estandartes. Geralmente, fazemo-nos ouvir (embora outrora gozássemos de prestígio maior). Caso precisemos de diplomacia, recorremos aos avós. Nunca nos decepcionaram e não haveria de ser agora, no fim da vida, um descabido desses acontecer.


out 22

Somos uma família normal. Exibimos as recordações amareladas nas prateleiras, os diplomas, as fotos, o mofo. Os pequenos logo são ensinados – com todos é assim – a viver de acordo com o que lhes assaltar o pensamento, não importando os achaques que nos tentam impor; e eles conseguem sempre, o peso abafado da rotina. Já terão dito: somos criados para nos tornarmos exatamente aquilo que foram os que vieram antes de nós.

Somos felizes, alguns ao menos, e moramos com conforto.


set 13

 

A padaria no bairro bucólico tinha lá sua personalidade.
Domingo não era domingo se não começasse pelas suas mesas na calçada, com um sanduichão quente de queijo e mortadela num pão estalante, copão de Toddy batido e um tarolo de mamão, para sossegar as entranhas. 
Mas havia um problema: péssimo serviço.
Atendentes sem traquejo, se não totalmente grosseiros, indiferentes.
Até que um dia, um cliente ousou reclamar que a conta estava demorando.
E ouviu do dono, com seu lápis atrás da orelha:
- Vai shifudeire, ó pá. Se querish paparico, que vá no brioche aviiiadado ali da ishquina…
O referido estabelecimento do outro lado da rua era uma finíssima pâtisserie. Comandada por um alegre e discreto casal de chefs.

 


ago 28

Tudo pronto para filmagem.
O diretor exigente não admitia outro tom de ocre na parede da casa cenográfica, se não fosse o que estava na sua cabeça.
- Não é. Pinta de novo.
A equipe se desesperava. Alguém pediu uma referência, pelamordedeus.
- O muro em frente ao estúdio tem o tom que eu quero.
Todos atravessaram a rua. Fotografaram o muro. E pintaram a parede igual.
- Não está igual ao muro. Pinta de novo.
Desespero. Os atores caíram no sono, o maquiador chorou.
A produção tentou pela terceira vez.
- Não está igual ao muro. Pinta de novo.
Filmagem suspensa. Desastre.
Dia seguinte, o diretor chegou cedo.
- Finalmente. Pintaram no tom que eu queria. Olha só, igual ao muro, não disse?? Seus babacas!!!
Paz no set.
Um produtor cochichou com cenógrafo:
- Como é que você conseguiu?
- Passamos a noite lá fora. Pintando o muro.


ago 10

Essa história não tem dono. Deu-se na China, tempos de fechadura. Diz-se que uns jornalistas brasileiros foram escarafunchar os costumes daquele povo planetário. Três meses se passaram e um deles teve, obviamente, as reações naturais de abstinência sexual prolongada. Entrou em crise, trancou-se no quarto do hotel. Deprimiu. Os amigos providenciaram o alívio. Ligaram para a recepção, contaram o acontecido. Foram bem atendidos, com a promessa de que tudo estaria resolvido ainda àquela noite. O abstêmio encheu-se de esperança. Dizem que tomou banho prolongado, salpicou-se de lavanda. Até que lhe bateram a porta. É hoje! Abriu de sopetão. Deu de cara com dois enfermeiros, olhinhos puxados, sorrisos dentuços. Um eles empunhando uma seringa cavalar. Quem souber o dono da história, por favor, me conte o final. Ou invente um desfecho.