Ao indagado sobre a existência de Deus,
o escritor Jose Saramago respondeu:
“Se Deus existisse não faria o que fez com o povo de Santa Catarina.”
Tal opinião se deu por ocasião das enchentes devastadoras naquele estado
e de lá para cá, o Nobel de literatura entrou numa cruzada ateísta,
tão pregadora quanto a de qualquer jesuíta em catequese.
Sou ateu, como disse LF Veríssimo, não praticante.
Acredito no ser humano, na sua ilimitada capacidade
de criar e buscar conhecimento, e na sua incapacidade
de dar respostas aos mistérios.
Mas não faço da minha “fé”uma bandeira a ser divulgada.
Crenças religiosas ou não crenças cada um tem a sua.
Admito o quanto de confortante seja para os flagelados da vida,
que perdem tudo de material de uma hora para outra,
ter uma uma fé, um fio de esperança sequer para continuar vivendo.
Em seu mais recente livro, Caim,
Saramago desfila seu talento absurdo e sua intimidade total com o bom texto,
coisa que me faz um hipnotizado e voraz leitor de suas obras.
No entanto, ouso dizer que ele está virando um xiita ateu,
que faz de suas palavras bem escritas uma bíblia a ser seguida, religiosamente.
E se Deus lhe é tão perturbador,
desconfio que ele considera a sua existência, mesmo que à avessas.
Eis a contradição. Coisa que dá até em gente inteligente.
